É preciso reconsiderar o deslumbramento da opinião pública com as
vantagens ambientais do etanol. Quem alerta é o químico Wilson de
Figueiredo Jardim, pesquisador da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Em conferência na reunião anual da SBPC,
ele chamou a atenção para aspectos que nem sempre são levados em conta
na avaliação dos biocombustíveis e manifestou ceticismo quanto à
possibilidade de alcançarmos um desenvolvimento sustentável se
mantivermos o modelo econômico atual.
"Não há
sustentabilidade possível dentro desse modelo suicida baseado no uso
perdulário dos recursos naturais de que dispomos", dispara Jardim. O
químico discutiu em detalhes o caso dos biocombustíveis e em especial o
do etanol, freqüentemente apresentado como uma alternativa limpa aos
combustíveis fósseis.
De acordo com ele, as vantagens ambientais geralmente atribuídas a esse
biocombustível levam em conta apenas a captura de carbono da atmosfera
pela cana-de-açúcar via fotossíntese. Para fechar essa equação, defende
o químico, é preciso considerar os custos ambientais e sociais
associados a outras etapas do ciclo de produção do álcool, no campo, na
destilaria e no entorno da plantação.
Entre os fatores que deveriam ser levados em conta, Jardim cita os
gases de efeito-estufa gerados pelo uso de adubos no cultivo da cana e
pelo transporte dos insumos e trabalhadores, os prejuízos para a
atmosfera e para a saúde pública motivados pela queima da palha da cana
e o grande volume de água empregado na produção.
Entre os inconvenientes da produção do etanol, Jardim destacou o grande
volume de vinhoto (ou vinhaça) gerado no processo de destilação da
garapa – da ordem de dez litros para cada litro de etanol produzido.
Esse líquido tem grande demanda bioquímica de oxigênio e é às vezes
descartado em rios. "O vinhoto produzido em 2006 – 180 bilhões de
litros – equivale a todo o esgoto bruto produzido no Brasil naquele ano
em termos de demanda por oxigênio", compara.
Jardim enfatizou ainda o custo social da produção do etanol. Ele lembra
que a rentabilidade do cultivo da cana e da produção melhorou muito nos
últimos trinta anos, mas o pagamento dos trabalhadores não acompanhou
essa melhoria. "O rendimento dos trabalhadores teve que subir pra
compensar esse déficit", explica. "A colheita de 1.000 kg de cana
requer 4 mil golpes de facão e 3 mil flexões de perna. A expectativa de
vida dos bóias-frias é hoje menor que a de um escravo."
POR UMA DISCUSSÃO MAIS MADURA
"Não sou contrário à adoção do etanol, que representa sem sombra de
dúvidas uma alternativa viável aos combustíveis fósseis", ressalta
Jardim. "Defendo apenas que discutamos sua produção de forma mais
madura e que consertemos as mazelas associadas à produção desse
combustível para que ele seja realmente limpo."
Jardim citou uma série de medidas que permitiriam reverter o quadro
traçado por ele. O aproveitamento energético do vinhoto e o
desenvolvimento da tecnologia de produção de etanol a partir da
celulose, por exemplo, permitiriam minimizar o custo ambiental e social
dos biocombustíveis. "Mas, acima de tudo, é preciso repensar nossa
lógica de consumo", avalia.
FONTE: Ciência Hoje / Agrosoft Brasi
Comentários
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