Para não esquermos a Paula e as palavras que nos deixou: "Afinal este é o nosso tempo e só nele poderemos concretizar"!
Paula Tavares
http://www.ecoblogue.net/
Ao serem entrevistados por Michael Moore, os dois criadores de South Park, responderam a certa altura que por mais defeitos que lhe encontremos ainda bem que a sociedade existe, nem que seja apenas para agir sobre o nosso lado biológico. Justificavam então como as crianças sem esta acção se podem tornar rapidamente nos seres mais cruéis à face da terra. O paradigma de rejeitarmos a formatação mas de lhe reconhecermos uma função lembra-me aquilo em que na maior beleza está também o maior monstro.
“Quantos de vocês em crianças se lembram das atrocidades feitas a pequenos bichos, de insectos a aves e um pouco mais além?”. A falta de identificação com o sofrimento do próximo, explicada pela falta de vivência e da ainda fraca consciência do “si”, explica porque as crianças facilmente infligem sofrimento sem sentido de compaixão… e quando terrivelmente usadas na guerra se tornam em armas mortíferas e sem qualquer misericórdia.
O processo de educação é em si um processo árduo para o indivíduo “domesticado”, que vê as suas necessidades primárias serem sucessivas vezes restringidas ou mesmo contrariadas. Caso este processo não seja aplicado desde cedo, o animal permanece à solta. Pode ter dificuldade em interagir com a multiplicidade de regras dos sistemas sociais que for encontrando mais à frente, nem tão pouco entender como proceder para satisfazer as suas necessidades. Parece que o melhor domesticado poderá estar entre as maiores revoluções, porque melhor entenderá como agir na linguagem que o sistema ouve, para o mudar a partir de dentro.
Alguns sistemas socio-económicos têm alguma similaridade com os sistemas biológicos. Ao contrário do que se pensa, as relações na natureza não são apenas reguladas pela lei do mais forte; há regras funcionais que submetem o interesse individual ao interesse do grupo. E assim acontece porque o interesse colectivo supostamente acabará por proteger o interesse dos indivíduos, no que diz respeito aos interesses mais biológicos; alimentação, defesa e reprodução. Mas no ser humano o interesse individual e colectivo não tem um peso tão grande como se pensa destas três premissas e existem outras projecções na sua realização, como a paixão e a ambição, sendo que estas podem servir em parte a realização dos referidos interesses mais biológicos.
A gestão que as comunidades biológicas fazem dos seus recursos nem sempre é exemplar e há casos de esgotamento dos mesmos. A dinâmica de regulação entre predadores e presas nem sempre se mantém funcional ao longo do tempo pois está sujeita também a factores relacionados com as condições ambientais ou mais especificamente as condições dos seus habitats que afectam quer presas quer predadores. Um bom exemplo disso é a acção das alterações climáticas sobre comunidades-presa que se repercutem depois em toda a cadeia trófica. Ou seja, não existe um determinismo na natureza que a torne previsível e perfeita como às vezes a imaginamos. E a imprevisibilidade que faz parte da natureza aumenta quando alguns dos factores que exibem padrões temporais e espaciais perdem esta particularidade de descreverem ciclos. Tal parece estar a acontecer com os padrões sazonais de algumas condições ambientais que influenciam a estrutura e organização das comunidades biológicas.
Uma semelhança pode ser encontrada na especulação bolsista criada pelo ser humano. Os factores que outrora descreviam padrões relativamente cíclicos passaram a ter uma natureza tão errática e caótica que se torna impossível prever a sua acção. No filme documentário “Os Lips, a imaginação ao poder” exibido a passada semana na Festa do Cinema Francês, entrevistam o patrão que procurou recuperar a Lip nos anos 70 mantendo algumas das práticas empreendidas pelos trabalhadores na sua fase de auto-gestão, como as assembleias gerais, e que foi sabotado pelo próprio estado que não podia ver aquele exemplo vingar… dizia então este patrão singular ao ser entrevistado: a finança que naquela altura embora já sendo selvagem se geria entendendo as empresas como um valor próprio a salvaguardar, deu lugar a uma nova finança que desconhece o principio e o fim do seu dinheiro virtual, não materializando o seu capital na instituição, na produção ou em qualquer valor real.
A quantidade transaccionada das aplicações agora chamadas de “produtos tóxicos” aumentou a imprevisibilidade a tal nível, que se tornou impossível suster os efeitos de dominó sobre os diversos sectores de actividade. Mas não nos deixemos enganar pelo discurso dominante na comunicação social que documenta a actual situação como o falhanço de algumas aplicações, pois o problema base está no modelo onde esta realidade se sustém, tal como alguns especialistas ousam já afirmar.
O mundo vive 12 vezes acima da riqueza que produz. Estamos perante um sobre-consumo demolidor, em que se “consome”ou melhor “compra”, mesmo o que não se conseguirá produzir. Uma ONG do Canadá, a “Global Foot Print Network” começou a trabalhar sobre esta matéria ainda nos anos 80; a pouco mais de metade dos anos 90 o consumo excedia em 15% a capacidade de reposição do planeta; em 2007 o consumo excedia em 25% a reposição. Há um ano o consumo excedeu a reposição a cerca de 3/4 do ano. Em 2008 tal aconteceu antes disso, ou seja a humanidade já tinha consumido até Setembro, os recursos que o planeta pode produzir no período de um ano.
O crescimento alimentado por este consumo teria um limiar segundo alguns economistas e filósofos, mas não se sabia bem quando aconteceriam os derradeiros sinais da incapacidade de sustentação deste modelo. Segundo algumas vozes os sinais eram diversos e já se faziam sentir, mas para outros esses seriam apenas as normais oscilações, dinâmica indispensável ao livre mercado. Percebe-se agora que tais oscilações se amplificaram rapidamente e, não obstante terem sido supostamente accionadas por uma deficitária avaliação do risco, segundo parece agora, a sua inevitabilidade transcende o rigor dessa avaliação de risco.
Esta semana, J. Howard Kunstler, o autor do livro “The Long Emergency” (versão portuguesa com título mudado) partilhou durante breves minutos com os portugueses a sua perspectiva sobre as supostas “soluções” que a humanidade procura nesta viragem, com os grandes desafios exigidos nas próximas décadas. Segundo ele a humanidade está viciada no ritmo a que entrou, querendo encontrar soluções dentro do modelo vigente, não percebendo que o modelo se esgotou e portanto jamais será possível manter um dado crescimento e subjacentes taxas de consumo. Tal como uma mola pasmada não responde ao esforço exigido que agora será outro, o de uma desaceleração, o inacreditável abrandamento ou mesmo a temida estagnação.
Se por um lado a sociedade está estruturada sobre o aumento do consumo, por outro lado a procura de recursos naturais suplantará sempre e cada vez mais a sua oferta, pelo que a escassez ditará uma maior valorização dos mesmos e uma redução drástica do seu consumo. Não se trata de uma escolha por uma reformulação do sistema, mas sim uma alteração forçada pela sua própria insustentabilidade a curto-médio prazo.
Quando perguntam a Kunstler quais as soluções para a crise ecológica, económica e financeira, ele não apresenta receitas mas apenas afirma que tais transformações passarão por uma menor mobilidade, uma retracção espacial das cidades em torno das zonas onde existirá água para consumo e para transporte fluvial/marítimo, uma produção mais local, uma agricultura mais manual, uma contracção dos poderes a uma esfera regional e local. Como resultado, a vida em vários subúrbios poderá tornar-se impossível, bem como nas cidades de um interior desertificado, com falta de água e sem transporte fluvial. Assim, as cidades que melhor se manterão serão aquelas cujo tamanho permitirá um consumo regulado por uma produção local; uma utilização de solos férteis e água perto da vida diária, de forma que a distribuição de bens alimentares não exigirá grandes gastos energéticos para aprovisionamento da população. O nível de organização privilegiado será o de pequenas comunidades em auto-gestão, o que indica um falhanço do estado como unidade centralizadora de poderes. Não será assim espectável um elevado nível de sucesso da intervenção do estado e haverá um aumento da entropia social, no sentido até de dificuldade de manter as actuais estruturas de autoridade e poder estatal.
Pensando sobre este cenário, o que aconteceu após ter livro o seu livro em 2006 e agora novamente ao ouvir as suas breves palavras, ocorre-me que se por um lado as mãos invisíveis do estado falham na contenção do que o mercado pode fazer às poupanças dos cidadãos, por outro as suas mãos mais visíveis poderão ser ineficazes nas próximas décadas. Poderão haver tentativas de um maior controlo durante algum tempo, mas logo se perceberá como cada vez será mais difícil para um estado controlar uma área muito alargada de território, aquando do início da redução da mobilidade, forçada pela crise energética.
A propósito desta crise, Kunstler acrescenta que haverá um período (não se sabe bem quanto longo será) em que as alternativas energéticas não conseguirão nem de perto ocupar o vazio deixado após a passagem do pico do petróleo, sendo este em breve… e que durante esse período de tempo o caminho possível será a redução dos gastos energéticos ao máximo, insistindo numa eficiência cada vez maior da energia produzida. Isto vai ao encontro do que mais atrás referia como sendo uma contracção da sociedade, na sua dimensão económica e produtiva e, também na sua dimensão espacial. A escala temporal, essa será alargada para tudo. Demorará muito mais tempo para produzirmos coisas idênticas (jamais iguais) ao que hoje produzimos. Teremos que recorrer a saberes antigos, em compêndios amarelados pelo esquecimento da prática.
Entre os opositores a este cenário, Kunstler encontra algumas das personalidades mais bem sucedidas da tecnologia da informação, como os funcionários-donos da Google, e descreve como estas figuras iluminadas confundem tecnologia com energia, achando eles que a tecnologia permitirá à humanidade superar esta fase difícil e não percebendo eles ainda que sem energia a preços acessíveis às populações, nenhuma daquela tecnologia poderá ser aproveitada pelas pessoas comuns. Penso eu agora que assim sendo, a democratização do acesso à informação poderá vir a ser coisa do passado, de uma época bem datada no tempo, em que o conciliar de energia barata com desenvolvimento tecnológico assim o permitiram. Ou seja, esta conquista bem como outras poderão não ser mantidas. Assistimos já hoje a uma perda de conquistas a nível do acesso a saúde e a educação, ao mesmo tempo que ainda estamos numa fase de aumentar o acesso à informação, procurando democratizar este ao máximo. Mas dentro em breve esta última conquista poderá vir a ser também perdida, por imposição de uma crise energética avassaladora, que começará por atingir primeiro os sectores mais pobres, mas que rapidamente alastrará à classe média e também a ricos.
Actualmente vivemos já cenários incríveis da derrocada abrupta de um sistema que se pensava bem montado. Paradigmaticamente se primeiro os “homens da finança” brincaram com o dinheiro da população e as suas poupanças, agora servem-se do dinheiro dos estados (que é dinheiro de todos os contribuintes) para aguentar o mesmo sistema com algumas contenções, o que significa colocar umas “compressas” sobre as feridas, mas não as curando no seu mal de origem. E fazem-no porque está nas suas mãos tudo o resto que as pessoas necessitam, nomeadamente as empresas onde trabalham. Erguem-se à nossa custa e ao caírem levam-nos atrás.
Vivemos tempos com uma oportunidade única de travarmos mudanças difíceis e corajosas, que sejam ainda em benefício de uma maior equidade no acesso aos escassos recursos, mas antes disso opta-se pela cosmética, um adiar do problema…
O caminho para o pico do petróleo foi acompanhado de benefícios jamais igualáveis para uma parte da população mundial, parte essa que agora se estende a oriente… mas até quando não se sabe bem. A “bolha do petróleo”, termo usado por Kunstler na referida obra, permitiu esse crescente desenvolvimento, que se pensava imparável. Este desenvolvimento, o estado de providência, as democracias bem sucedidas… pareciam algo inerente à humanidade… Ao invés disso poderemos estar cada vez mais próximos da nossa mais biológica condição, da barbárie, por não nos termos preparados culturalmente e socialmente para a derrocada económica e política que aí vem.
Alguns de nós viverão o suficiente para reler e rever obras emblemáticas que previam esta derrocada. Os tecno-confiantes estarão de mãos amarradas para ajudar com toda a sua boa-fé e capacidade transformadora, porque aí será tarde demais também para eles. Esta é claro uma visão negativa, mas que gostava de não ver triunfar. Mais um paradigma, se por um lado acredito nesta visão, queria que ela falhasse… e que o ser humano descobrisse formas eficazes de se preparar atempadamente para um infortúnio da ecologia como arma de propaganda.
Aos ecologistas, onde sem medo me auto-incluo e também aos tecno-confiantes, onde se auto-incluem vários dos meus amigos ecologistas, faço o seguinte apelo: Não se deixem resignar e amargurar seja qual for o rumo que isto levar. Afinal este é o nosso tempo e só nele poderemos concretizar.
Comentários
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