Incêndios, pragas e falta de gestão - Pinhais vão deixar indústria sem madeira nos próximos anos

http://economia.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1411466

Se nada for feito, restam três hipóteses aos industriais: fechar fábricas, importar madeira ou emigrar. O cenário é traçado por Fernando Rolin, da Associação das Indústrias de Madeira e Mobiliário de Portugal (AIMMP). A razão? O pinhal nacional não irá conseguir abastecer a indústria num futuro muito próximo. Para tentar resolver alguns dos estrangulamentos, o Governo vai rever o plano de investimentos para o sector.

A única espécie que está em franco declínio no país é o pinheiro-bravo. Já se sabia desde o último Inventário Florestal Nacional (2006) e já se adivinhava face ao que se tem vindo a passar no terreno. Se não são os incêndios, que nos últimos anos têm sido particularmente vorazes em zonas de pinhal, é o nemátodo do pinheiro, que no ano passado invadiu a Região Centro, onde o seu combate é muito mais difícil. E todos estes problemas derivam de um maior: a ausência de gestão.

Agora, um estudo feito pela AIMMP e pela Sociedade Portuguesa de Inovação, com o patrocínio do Ministério da Agricultura e divulgado ontem num encontro na Curia, vem quantificar o drama: as necessidades de toda a indústria ligada ao pinho (serrações, painéis, carpintaria e mobiliário) para os próximos 20 anos vão aumentar 50 por cento, para 8,39 milhões de toneladas. Hoje, a floresta consegue oferecer 4,8 milhões de toneladas.

Nem será preciso esperar 20 anos para que o desequilíbrio seja tão evidente. Bastarão os próximos cinco. Ou mesmo nenhum, pois, conforme se verifi ca no estudo, Portugal tem vindo cada vez a importar mais madeira de pinho, com a contrapartida que deixou de exportar, dado o embargo à madeira em rolaria em vigor desde meados de 2008 devido, mais uma vez, ao nemátodo. Até porque entraram no mercado dois novos actores, grandes consumidores de madeira: as centrais de biomassa e a produção de pellets (tipo de combustível, geralmente produzido a partir de serrim e estilha compactados).

O estudo, que incidiu muito sobre as serrações, embora acabe por dar um panorama sobre todo o sector, lembra que em causa estão 250 empresas e 4500 postos de trabalho só neste subsector. Acrescem todos os outros ligados à fileira, e que vão da indústria dos painéis ao mobiliário.

Os autores, em conversas com quem está no terreno, chegam a outra conclusão: com o recuo do pinheiro bravo, irão abrir-se alas a outra espécie – o eucalipto. Com a evolução do nemátodo, que obriga ao corte de centenas de árvores doentes, será a biomassa que ganhará. Soluções: mais gestão florestal, maior investimento no pinheiro-bravo, tanto em plantações como em melhorias genéticas, e competitividade.

Comentários

Sistema demasiado vulnerável

A vulnerabilidade das "florestas" portuguesas é demasiado elevada. O conceito de "panarquia", dos ecologistas teóricos Gunderson e Holling descreve bem os aspectos que contribuem para a falta de capacidade de adaptação a perturbações: elevada conectividade (plantações contínuas), baixa diversidade (monocultivos de pinheiro e eucalipto) e elevada riqueza (grande concentração de biomassa).

Acabo de reler um interessante artigo de Evan Fraser que analisa o caso da fome na Irlanda entre 1845 e 1850 resultante da proliferação de um fungo na batata. O artigo baseia-se na teoria dos "entitlements" de Amartya Sen e também no conceito de panarquia. O que Fraser verifica é que o sistema ecológico estava extremamente vulnerável devido à expansão do monocultivo de uma variedade de batata, substituindo outros cultivos e outras variedades tradicionais. Mas também a alterações no regime de propriedade, com a divisão da propriedade associada a um aumento da população, que levou a uma concentração dos terrenos agrícolas. Esta situação levou a que o fungo - que já tinha tido episódios menos graves - se alastrasse a todo o território. Como muita da população não tinha outra opção senão a de comer e vender a batata para seu sustento, muitos foram os que morreram, muitos foram os que emigraram para Inglaterra ou Estados Unidos.

A situação não é muito diferente nas nossas florestas, excepto que a maioria das gentes urbanas está afastada dos choques de um ecossistema vulnerável... mas isso só funciona até certo ponto...

Fica a referência do artigo:
Fraser, E. D. G., 2003. Social Vulnerability and Ecological Fragility: Building Bridges between Social and Natural Sciences Using the Irish Potato Famine as a Case Study. Conservation Ecology 7 (9).

Gualter Barbas Baptista