A economia tem três níveis

O livro Economia Cartesiana, de Frederick Soddy, foi publicado em 1922, e Riqueza, Riqueza Virtual e Dívida, em 1926. Ganhou o Prémio Nobel de Química e foi professor em Oxford, como explico no meu livro Economia Ecológica, de 1987. A minha interpretação das conceções de Frederick Soddy é semelhante à do artigo de Herman Daly sobre ele, datado de 1980. Os ensinamentos de Soddy nos anos 1920 tornaram-se fáceis de entender para os economistas ecológicos que tinham lido A Lei da Entropia e o Processo Económico, de 1971, de Georgescu-Roegen.

 

O essencial em Soddy era simples e aplica-se hoje. É fácil ao sistema financeiro aumentar as dívidas (dívidas públicas ou privadas), e tomar falsamente essa expansão do crédito por criação de riqueza real. Porém, no sistema industrial, o crescimento da produção e o crescimento do consumo implicam crescimento da extração e destruição final dos combustíveis fósseis. A energia dissipa-se, não se pode reciclá-la. Riqueza real seria, em vez disso, o fluxo permanente de energia proveniente do sol. A contabilidade económica é falsa porque confunde o esgotamento dos recursos e o aumento de entropia com a criação de riqueza.

 

A obrigação de pagar dívidas a juro composto poderia ser satisfeita espremendo por algum tempo os devedores. Outros meios de pagar a dívida são a inflação (depreciação do valor da moeda) ou o crescimento económico – que se mede de maneira falsa porque se baseia na subvalorização de recursos esgotáveis e na não valorização da poluição. A contabilidade económica não dá conta adequadamente dos prejuízos ambientais e da esgotabilidade dos recursos. Era essa a doutrina de Soddy. Foi sem dúvida um precursor da economia ecológica.

 

Por outras palavras, a economia tem três níveis. No topo situa-se o nível financeiro que pode crescer por meio de empréstimos feitos ao setor privado ou ao estado, por vezes sem qualquer garantia de reembolso como acontece na atual crise. O sistema financeiro saca de empréstimo ao futuro, na expectativa de que um crescimento económico indefinido há-de proporcionar os meios de reembolsar os juros e as dívidas. O sistema financeiro cria riqueza «virtual». Os bancos concedem crédito muito para além do que possuem em depósitos, e isso impele ou empurra o crescimento económico pelo menos por algum tempo.

 

Vem depois aquilo a que os economistas chamam a economia real, a chamada economia produtiva. Como refere o The Economist (11 de abril de 2009), Hakan Samuelsson, presidente da empresa alemã de fabrico de camiões MAN, fez essa distinção com toda a clareza quando afirmou: «Criar valor através da alavanca financeira será mais difícil no futuro, podemos por isso regressar à nossa real tarefa que é a de criar valor industrial através da tecnologia, da inovação e do fabrico eficiente».

 

Quando a economia real dos economistas cresce, ela de facto permite reembolsar alguma ou toda a dívida; quando não cresce o suficiente, a dívida fica por pagar. A montanha da dívida cresceu em 2008 muito para além daquilo que os acréscimos do PIB (Produto Interno Bruto, GDP) poderiam pagar. A situação não era financeiramente sustentável. Mas o próprio PIB não era ecologicamente sustentável.

 

Mais abaixo, no alicerce da construção económica, subjacente à economia real dos economistas, situa-se o terceiro nível: a economia real-real dos economistas ecológicos, os fluxos de energia e de materiais (transportados por camiões e navios). O seu crescimento depende em parte de fatores económicos (tipos de mercados, preços) e em parte de limites físicos. Atualmente, existem não apenas limites em recursos mas também limites notórios dos vazadouros. As alterações climáticas são causadas principalmente pela queima excessiva de combustíveis fósseis.

 

Regressar ao «crescimento alimentado pela dívida» após 2009 não seria apenas financeiramente perigoso. É na verdade impossível atualmente, já que os bancos estão saturados de «ativos tóxicos» e por isso relutantes em emprestar. A própria frase é enganadora. O crescimento não é «alimentado» pela dívida e pelo dinheiro, ele é, prosaicamente, alimentado pelo carvão, pelo petróleo e pelo gás. Os combustíveis fósseis não são produzidos pela economia, foram produzidos geologicamente há muito tempo atrás.