A crise económica de 2008-2009 fez regressar John Maynard Keynes à boca da cena. Em linguagem keynesiana, podemos dizer que as economias têm capacidade produtiva não utilizada, existe um fosso entre a procura efetiva e a utilização em plena capacidade do trabalho e do equipamento industrial. O desemprego está a aumentar, e o remédio adequado é aumentar a despesa pública, «despesa ao abrigo do défice», como se diz. A despesa pública é boa porque, indiretamente, leva a comprar carros e a pagar as hipotecas e mesmo a comprar novas casas, arrancando essas indústrias da depressão. Os governos encontram-se sob pressão não apenas para aumentar a despesa em investimento público ou em consumo mas para refinanciar as dívidas privadas aos bancos, dívidas que não serão pagas («ativos tóxicos»), convertendo até certo ponto essas dívidas privadas em dívidas públicas.
Keynes quis sair da crise de 1929. A receita pré-keynesiana de esperar que o mercado atingisse o equilíbrio, esperando portanto que o desemprego crescente deprimisse os salários a tal ponto que os empresários voltariam a querer admitir de novo trabalhadores, foi desastrosa. Para esclarecer esse ponto, Keynes teve o célebre dito de que não lhe interessava o que viesse a acontecer no longo prazo quando a economia tivesse recuperado da crise.
Nos anos 1950, economistas como Roy Harrod e Evsey Domar converteram o keynesianismo numa doutrina de crescimento de longo prazo. Desde que houvesse bastante despesa pública ou privada em consumo e investimento para manter a procura efetiva próxima da oferta potencial com plena capacidade de utilização, a economia não entraria em crise. Entretanto, o investimento teria feito aumentar a oferta potencial, por forma a que nova despesa seria exigida na ronda seguinte por forma a que a economia não entrasse em crise, numa via virtuosa de crescimento contínuo. Esses modelos económicos eram metafísicos no sentido em que não tinham em consideração o caráter esgotável dos recursos ou a poluição.
O keynesianismo foi triunfante nos anos 1960, a era do petróleo baratíssimo. Mais tarde, tanto os keynesianismos de curto como os de longo prazo foram abandonados. O pensamento neoliberal ressuscitou. Os neoliberais, como Hayek, achavam que os mercados sabiam muito mais do que o estado. Mas uma objeção ao neoliberalismo que não obteve resposta, formulada pelos ambientalistas, era que o mercado não valorizava a escassez futura e intergeracional (como tinha já notado Otto Neurath em Viena nos anos 1920 em contraposição a Von Mises e Hayek no debate sobre o cálculo socialista, cf. Martinez-Alier, 1987).
Na crise de 2008-2009, o neoliberalismo passa por doença grave. Alguns banqueiros estão a pedir que o estado tome conta dos seus bancos. Keynes regressou, reincarnado em Stiglitz e Krugman. Na qualidade de economistas ecológicos, temos que perguntar: estamos perante um Keynes de curto prazo para sairmos dos piores aspetos da crise, ou também um Keynes de longo prazo para entrarmos numa via de crescimento económico contínuo?
Aqueles que propõem um keynesianismo Verde ou um New Deal Verde de curto prazo como medida temporária estão próximos de uma economia ecológica. Se o investimento público tiver que crescer, como na verdade tem, para conter o aumento do desemprego, é melhor canalizá-lo para o bem-estar dos cidadãos e para«tornar verde» a produção de energia, do que para a construção de autoestradas e aeroportos.
No entanto, o keynesianismo Verde não se deveria tornar uma doutrina de crescimento económico contínuo. Até agora, o crescimento deu-se com o uso de energia do carvão, petróleo e gás natural. No keynesianismo verde parece desejável aumentar o investimento público em conservação da energia, instalações fotovoltaicas, transportes públicos urbanos, recuperação de habitações, agricultura biológica. Mas não parece desejável perseverar na crença no crescimento económico. Nos países ricos um ligeiro declínio económico está já a verificar-se e facilmente se poderia tornar socialmente sustentável.
Não estamos nos anos 1930 – na Europa existem economias com rendimentos per capita de mais de 25 mil euros. É possível obter um recuo de 10 por cento (com um decréscimo correspondente de energia e fluxos materiais) caso existam ou sejam criadas instituições de redistribuição. Desse modo, entraremos numa transição socioecológica. Existe já um acordo na Europa para que as emissões de dióxido de carbono sejam reduzidas em 20 por cento em relação a 1990. Na realidade, as emissões e o PIB, estão, no início de 2009, a diminuir mais depressa que o exigido para atingir esse alvo.
Há muitas décadas atrás, o movimento feminista mostrou com clareza que o PIB não valoriza o que não se encontra no mercado, como o trabalho doméstico não pago e o trabalho voluntário. Uma sociedade rica em «bens e serviços relacionais» teria um PIB mais baixo do que uma (impossível) sociedade na qual as relações pessoais fossem exclusivamente mediadas pelo mercado.
O movimento pelo decrescimento sustentável insiste no valor não crematístico dos serviços locais e recíprocos. Além disso, os economistas (ou melhor os psicólogos) concordam agora em que, acima de um certo limiar, o crescimento do PIB não conduz necessariamente a uma maior felicidade. Essa pesquisa atualiza a literatura sobre o chamado paradoxo de Easterlin (veja http://en.wikipedia.org/wiki/Easterlin_paradox). Por isso, o PIB deveria deixar de ter a posição dominante que tem atualmente em política e que prejudica exigências sociais e ambientais.
No entanto, o decrescimento pode provocar problemas sociais que temos que encarar para que a proposta de decrescimento seja socialmente aceitável. Se a produtividade do trabalho (por exemplo o número de carros que um trabalhador produz por ano) aumenta anualmente 2 por cento mas a economia não acompanha esse aumento, o resultado será o aumento do desemprego. A resposta deverá ser dupla. Os aumentos de produtividade não são corretamente medidos. Se há substituição de energia humana por máquinas, o preço da energia toma ou não em conta o esgotamento de recursos e as externalidades negativas? Sabemos que não.
Mais ainda, deveríamos separar o direito a receber uma remuneração do facto de ter um emprego. Essa separação já existe em muitos casos (crianças e jovens, pensionistas, pessoas que recebem subsídio de desemprego), mas deveria ser ampliada. Temos que redefinir o que significa «emprego», tendo em conta os serviços domésticos não pagos e o setor voluntário, e temos que introduzir ou ampliar a cobertura de um Rendimento Base ou Rendimento do Cidadão universal.
Outra objeção surge. Quem pagará a montanha de dívidas, hipotecas e outras dívidas se a economia não crescer? A resposta tem que ser: ninguém vai pagar. Não podemos forçar a economia a crescer à taxa do juro composto segundo a qual as dívidas se acumulam. O sistema financeiro tem que ter regras diferentes das atuais. Nos Estados Unidos e na Europa o que é novo não é, pois, o keynesianismo ou mesmo o keynesianismo verde. O que é novo é um crescente movimento social a favor do decrescimento sustentável. A crise abre oportunidades a novas instituições e hábitos sociais.