Ativos tóxicos e dívidas venenosas

Os ativos que assumem a forma de reivindicação de dívidas que ficarão por pagar foram batizados com o divertido nome de Ativos Tóxicos. Nas folhas de balanço dos bancos, o valor desses ativos terá que ser grandemente reduzido ou suprimido. Do lado da dívida do balanço, as nossas convenções contabilísticas não incluem os prejuízos infligidos ao ambiente. Devemos às gerações futuras uma enorme «dívida em carbono», e devêmo-la igualmente aos pobres do mundo que poucos gases com efeito de estufa produziram.

 

Grandes dívidas ambientais são igualmente devidas por firmas privadas. Numa ação em tribunal no Equador, pede-se à Chevron-Texaco que reembolse 16 mil milhões de dólares. A empresa Rio Tinto deixou enormes dívidas dessas desde 1888 na Andaluzia, de onde lhe vem o nome, e também em Bougainville, na Namíbia, na Papua Ocidental juntamente com Freeport McMoran... dívidas aos pobres ou aos povos indígenas. A Shell tem enormes dívidas no Delta do Níger. Não se preocupem. Essas dívidas venenosas constam dos livros de história mas não dos livros de contabilidade.

 

Veja-se o que se passa com a mineração de bauxite Vedanta nas colinas de Niyamgiri em Orissa. O declínio do preço do alumínio se a crise económica se agravar poderá salvar as colinas de Niyamgiri. Caiu em mais de metade nos últimos meses de 2008. Daí que também a bauxite seja mais barata. Podemos ainda perguntar: quantas toneladas de bauxite vale uma tribo ou uma espécie à beira da extinção? E como podemos exprimir esses valores em termos que um ministro das finanças ou um juiz do supremo tribunal possa compreender?

 

Em relação à lógica económica em euros ou dólares, a linguagem de valorização de camponeses ou de tribos passa despercebida. Ela inclui a linguagem dos direitos territoriais contra a exploração externa, a convenção da ILO (Organização Internacional do Trabalho) 169 que exige o consentimento prévio de projetos em terras indígenas, ou na Índia a proteção dos adivasi pela constituição e por sentenças dos tribunais. Também se poderia apelar a valores ecológicos e estéticos. As colinas de Niyamgiri são sagradas para os Dongria Kondh. Poderíamos perguntar-lhes: Quanto querem pelo vosso Deus? Quanto querem pelos serviços fornecidos pelo vosso Deus?