A questão não é saber se o valor económico pode ser determinado unicamente nos mercados existentes, ou se os economistas elaboraram métodos para a valoração monetária de bens e serviços ambientais ou de externalidades negativas no exterior do mercado. A questão é antes saber se toda a avaliação num determinado conflito (sobre a extração de cobre ou de ouro no Peru ou de bauxite em Orissa, numa barragem hidroelétrica no Nordeste da Índia, sobre a destruição de um mangal no Bangladeche, Honduras ou Brasil para dar lugar à exportação de camarão, sobre a determinação de um nível adequado de emissões de dióxido de carbono pela União Europeia) se deve reduzir a uma única dimensão. Uma tal exclusão de valores deveria ser rejeitada, sendo em vez dela favorecida a aceitação de uma pluralidade de valores incomensuráveis.
Com a crise económica, veremos agora o fim da explosão de exportações de energia e de materiais, diminuindo assim as pressões nas fronteiras das matérias primas? Planos grandiosos para cada vez mais exportações da América Latina foram impelidos em particular pelo presidente Lula do Brasil. Mais estradas, oleodutos, portos e hidrovias, mais exportações da América Latina de petróleo, gás, carvão, cobre, minério de ferro, soja, celulose, biodiesel e etanol, foi esse o credo do presidente Lula. Em outubro de 2008, e em total oposição à Via Campesina e ao MST (movimento dos trabalhadores rurais sem terra) do Brasil, Lula continuava a pressionar para uma abertura geral dos mercados mundiais às exportações da agricultura. Foi à Índia para tentar consegui-lo, e aumentar a taxa de suicídio dos agricultores, exigindo a liberalização das importações e exportações agrícolas na ronda de Doha. É verdade que a explosão das exportações deu a Lula dinheiro para objetivos sociais e aumentou a sua popularidade. A Petrobrás não era menos perigosa para o ambiente e para os povos indígenas da América Latina do que a Repsol ou a Oxy.
A obsessão de Lula com as exportações primárias explica que ele nada fizesse acerca da desflorestação da Amazónia, levando à demissão da ministra do ambiente Marina Silva em 2008. Qual irá ser a estratégia do presidente Lula e da esquerda latinoamericana no seguimento do craque de 2008-2009? A insistência de Lula nas virtudes da produção de etanol para exportação é um equívoco. Os agrocombustíveis têm um baixo EROI (especialmente tendo em conta a vegetação que existia, já antes que os agrocombustíveis ocupassem a terra), eles aumentam a AHPPL em prejuízo da biomassa de outras espécies, e implicam enormes exportações «virtuais» de água não pagas. Na verdade, a crise deveria ser um incentivo para privilegiar o desenvolvimento interno, e não para vender o ambiente a tão baixo preço. Os preços das matérias primas baixaram, e além disso outros valores (sociais, ambientais) foram sacrificados. A esse respeito, são interessantes algumas propostas feitas pelo Equador em 2007 (apoiadas até certo ponto pelo Presidente Rafael Correa, que é um economista da esquerda tradicional mais do que um economista ecológico). Na cimeira da OPEC de novembro de 2007, em Viena, quando o Equador regressou a essa organização, a OPEC aprovou em princípio uma resolução de apoio à proposta Yasuni-ITT (a de deixar o petróleo no subsolo, num território habitado por povos indígenas nunca contactados e de grande valor em biodiversidade), tendo também manifestado interesse na chamada ecotaxa Daly-Correa.
Essa taxa, proposta pelo presidente Correa na reunião da OPEC, baseia-se no conceito formulado por Herman Daly num discurso feito na OPEC em 2001 (Daly, 2007). Os países da OPEC rejeitaram a existência do aumento do efeito de estufa. Essa ecotaxa exprimiria preocupação com as alterações climáticas. Uma taxa sobre o carbono imposta pela OPEC a saída dos poços petrolíferos em vez da tentativa de regulamentar as emissões à saída das chaminés e tubos de escape, seria mais justa para os países exportadores e talvez mais eficaz na redução das emissões globais de dióxido de carbono. Essa ecotaxa tornaria mais fácil a aceitação da realidade das alterações climáticas por parte dos países exportadores de petróleo (e também, se imitada, dos países exportadores de gás e carvão).
O princípio é o seguinte: exportar menos a um preço mais elevado. O dinheiro recolhido com essa taxa seria destinado a financiar uma transição energética que se iria afastando dos combustíveis fósseis, a ajudar os povos pobres em todo o mundo e a ajudar países como o Equador e a Nigéria a manterem o petróleo (ou o gás) no subsolo quando localizado em ambiente frágil ou culturalmente sensível (Martinez-Alier e Temper, 2007).
Para o fim de 2008 a crise económica estava a provocar a baixa de preços das matérias primas, petróleo incluído, parecendo que tinha passado o momento para essa taxa. Desde julho de 2008, baixaram em 60 por cento os preços do trigo, do milho e da soja, tal como aconteceu com o cobre, o níquel, o alumínio. Parte da exlosão financeira na Islândia baseou-se em investimentos externos na expectativa de uma multiplicação da extração a quente de alumínio. Os ambientalistas protestaram com força contra essas extrações e contra as centrais elétricas que arruinavam ambientes imaculados, custo esse não incluído na contabilidade económica. A economia da Islândia paralisou em outubro de 2008. Os bancos ficaram incapazes de devolver o dinheiro aos titulares de depósitos e foram nacionalizados.
Enquanto que nos anos 1920 as matérias primas baixaram de preço alguns anos antes de 1929, desta vez o aumento dos preços das matérias primas (com a ajuda de mal orientados subsídios aos agrocombustíveis, do cartel da OPEC e do investimento financeiro no mercado de futuros) continuou por alguns meses após o início da forte quebra da bolsa. No entanto, para o final de 2008 os preços das mercadorias declinaram devido à redução da procura. O Índice Baltic Dry mede as cotações dos transportes marítimos. Esse índice declinou bruscamente desde julho 2008 em parte devido à baixa das importações chinesas de ferro. A multinacional mexicana CEMEX tinha já anunciado, em 16 de outubro de 2008, que iria reduzir a sua força de trabalho em 10 por cento em todo o mundo devido à baixa da procura de «agregados» e cimento, enquanto que as fábricas de automóveis na Europa e nos Estados Unidos reduziram a produção desde meados de 2008. O preço mundial do petróleo baixou para o final de 2008, não devido ao aumento da oferta, mas devido à diminuição da procura. Alguns projetos petrolíferos (com EROI baixo e elevados custos marginais) como a produção das areias betuminosas de Alberta e a pesada exploração petrolífera do Orinoco deverão ser suspensos, como também o projeto Yasuni ITT no Equador, pequeno mas de elevados custos económicos, ambientais e sociais.
Para outras matérias primas que não o petróleo, os países exportadores podem reagir de modo irracional, mantendo ou mesmo aumentando a oferta numa tentativa de manter os rendimentos. Poderá haver uma guerra de preços da soja entre a Argentina e o Brasil. Em vez disso, este seria o momento para a América Latina, a África e outros exportadores líquidos de matérias primas pensarem num desenvolvimento endógeno que se aproximasse de uma economia ecológica. Muitos países do sul sofrerão também devido a menores remessas dos emigrantes. Uma recusa por parte do Sul de fornecer matérias primas baratas à economia industrial, impondo taxas sobre o esgotamento do capital natural e quotas de exportação, ajudaria também o Norte (incluindo algumas partes da China) na sua necessária via de longo prazo rumo a uma economia que utilize menos materiais e energia.