Neomaltusianismo de baixo para cima

A transição socioecológica em direção a menores níveis de uso de energia e materiais será ajudada se se completar a transição demográfica mundial, e, mais ainda, se a população, após atingir um pico de 8 500 milhões de habitantes baixar depois para 5 000 milhões, como indicam algumas projeções (Lutz e outros, 2001). Recorde-se que a população mundial aumentou quatro vezes no século XX, partindo de 1 500 milhões até atingir 6 000 milhões. A consciência ambiental pode influenciar as taxas de nascimentos (como no neomaltusianismo de 1900 e na China desde 1980).

 

A importância do crescimento da população no aumento do Metabolismo Social é óbvia. A equação de Paul Ehrlich I=PAT (http://en.wikipedia.org/wiki/I_PAT) poderia aplicar-se historicamente, com um indicador adequado para T (tecnologia): I - impacto humano, resultante do produto da população vezes A - abundância (consumo) vezes T - tecnologia.

 

Houve por volta de 1900 numerosos debates acerca de «quantas pessoas poderia a Terra alimentar», focalizados apenas nas necessidades da espécie humana. Os neomaltusianos do final do século XIX e do início do século XX eram politicamente radicais e feministas. Havia uma grande diferença entre o maltusianismo originário de T. R. Malthus e o neomaltusianismo de 1900. Trabalhos de investigação histórica sobre o neomaltusianismo documentaram com clareza o movimento radical e feminista a favor da limitação de nascimentos na Europa e nos Estados Unidos à volta de 1900. Em França, esse movimento teve o nome de «greve dos ventres». No Sul da Índia, o movimento de «respeito de si mesmo» lançado por E. V. Ramasamy (chamado Periyar, pensador tamil e ativista político, 1879-1973) adotou uma orientação semelhante. No Brasil a feminista anarquista neomaltusiana Maria Lacerda de Moura escreveu: «Amem-se mais uns aos outros e não se multipliquem tanto.» Essa história intelectual e social permite-me apresentar as seguintes definições.

 

Maltusianismo: a população manifesta um crescimento exponencial a não ser quando contrariado pela guerra e pelas epidemias, ou pela castidade e casamentos tardios. Os alimentos aumentam menos do que proporcionalmente perante a aplicação de trabalho, o que se explica devido a rendimentos decrescentes. Daí provêm crises de subsistência.

Neomaltusiasnismo de 1900: A população humana poderia regular o seu próprio crescimento por meio da contraceção. Para isso era necessária a liberdade da mulher, além de desejável em si mesma. A pobreza era explicada pela desigualdade social. «A procriação consciente» tornava-se necessária para evitar os baixos salários e a pressão sobre os recursos naturais. Esse foi um movimento bem sucedido, de baixo para cima, na Europa e na América, contra os Estados (que queriam mais soldados) e as Igrejas (Ronsin, 1980, Masjuan, 2000).

Neomaltusianismo após 1970: doutrina e prática patrocinadas por organizações internacionais e alguns governos. O crescimento da população é considerado como uma das causas principais da pobreza e da degradação do ambiente. Por essa razão, os Estados deveriam promover métodos de contraceção, mesmo sem o consentimento prévio das mulheres.

Antimaltusianismo: A conceção segundo a qual o crescimento da população não constitui uma das principais ameaças ao ambiente natural e que conduz mesmo ao crescimento económico, como defenderam Esther Boserup e outros economistas.