Os mil black blocs que ficaram na esquadra

Ontem, mesmo estando em modo de roaming (onde fui convidado pelo Reclaim the Fields da Hungria a participar num magnífico evento com Carlos Aguirre Rojas, um inspirador professor e investigador mexicano, apoiante zapatista), mantive-me atento a todas as notícias, para não perder o momento alto da cimeira da NATO, aquele em que os tão temidos e pré-anunciados elementos do tipo black bloc iriam começar a partir montras e a atirar cocktails molotov contra a polícia ou os indefesos cidadãos lisboetas, como tão brilhantemente descreveu o Hernâni Carvalho num programa da manhã da SIC (a partir do minuto 18), que contou com a presença do José Manuel Anes, presidente do OSCOT.

Contudo, a perigosa e militarmente treinada guarda avançada de elementos black bloc, tão badalada por este especialista em esoterismo (e supostamente também em segurança e terrorismo), não chegou a sair à rua ou pelo menos ninguém os viu. A batalha de Lisboa entre uns manifestantes violentos e uns quaisquer blindados recém-estreados não pôde entrar na história.

Tendo em conta que cerca de 150 elementos pertenciam a colectivos como o Clown Army e os War Resisters International (que iriam provavelmente engrossar a acção de desobediência civil não-violenta no Cabo Ruivo, ou fazer outra similar) e que apenas cerca de 200 foram bloqueados, também não terá sido esta demonstração pública da famosa hospitalidade portuguesa que eliminou da noosfera os pelo menos mil elementos violentos que se esperavam. O mais provável é terem ficado dentro do quartel da polícia, porque os tais blindados que iriam proporcionar excelentes fotografias e vídeos do campo de batalha, se atrasaram (mas obviamente que o governo, agora, não tem nada a ver com essas compras milionárias e a polícia também não).

Ainda assim, mesmo sem blindados, chegaram a tentar a sua sorte para algumas fotografias e elementos para a propaganda mediática. Primeiro, a polícia impediu, com a ajuda do serviço da ordem do PCP, a participação de um grupo supostamente anarquista numa manifestação plural, que tem lugar e depois, isolando um grupo de manifestantes vestidos de negro, "como medidas policiais preventivas para evitar problemas". Nada de novo, na estratégia de provocação da polícia (não deve ser difícil compreender como é necessário bastante auto-controlo e vontade política para não reagir a tamanha discriminação ideológica num estado supostamente democrático). Contudo, o que mais curioso em tudo isto, é a forma como o negro deixou apenas de ser elemento discriminatório na tez da pele e se alargou também às suas coberturas, onde tradicionalmente era uma cor respeitada, a cor do luto, símbolo do sofrimento profundo por uma perda próxima. Desde a vinda da NATO a Portugal (na forma de cimeira, que de outras formas já cá está há demasiado tempo), que o sofrimento deixou de ser permitido, ou pelo menos a sua manifestação (na forma de motivação ideológica ou qualquer outro tipo de motivação) contra o elemento do sofrimento.

Toda a estratégia de propaganda e provocação governamental para justificar, perante a opinião pública, o dispêndio de 1200 milhões de euros em blindados, saiu completamente furada. Por essa razão, terão que rolar cabeças e eu proponho já uma: a do José Manuel Anes. Para contribuir para isso, proponho-me a colocar as seguintes questões à Universidade Nova de Lisboa, instituição à qual pertenço há 13 anos (e que tratarei de encaminhar aos meus colegas universitários e ao meu excelentíssimo reitor):

1. Agora que ficou mais claro que o OSCOT, organismo cujos relatórios (se os tem) não são publicamente divulgados, apresenta propaganda falsa e manipuladora da opinião pública (em particular pela voz do seu actual presidente, José Manuel Anes), certamente ao serviço de determinados interesses políticos, poderá a UNL cessar a sua associação este organismo?

2. Em caso negativo (isto é, o observatório irá manter-se), quais as vantagens que a UNL obtém (eventualmente na forma de contrapartidas monetários, de troca influências políticas, ou de reais contribuições académicas e/ou sociais que até hoje não encontrei) da presença deste observatório sem importância académica ou relevância social aparente?

Quanto aos blindados, está agora claro que foram adquiridos não para enfrentar qualquer ameaça externa militarmente treinada, mas sim para combater os próprios cidadãos. É que já vários sociológos apontam para uma potencial situação explosiva e de revolta social que se avizinha, embora a direita e extrema-direita chic, gente que nunca conheceu o significado da fome ou da precariedade, é incapaz de visualizar. Não há que censurar esses príncipes felizes. A sua Weltanschaaung (visão do mundo) foi construída, ao longo de décadas, até séculos, dentro dos altos muros dos seus palácios de abundância e perfeição. Lá, até o mercado parece perfeito e a mão invisível de Adam Smith uma realidade.

Os blindados, é claro, vêm em seu auxílio, mas quem os comprou não sabe, ou esqueceu-se, que o sofrimento social alimenta o movimento social e este, por vezes, transforma-se em dilúvio, em tonalidades de negro, vermelho e até verde. Nenhum blindado ou propaganda pode proteger os seus muros, que são de barro, de um tal dilúvio que, paradoxalmente, como se as leis que se sempre tomámos como naturais já não fizessem sentido, tende a deslocar-se contra a gravidade, de baixo para cima.