Os Votos não são todos Iguais

[texto enviado a todos os partidos que concorreram às eleições de passado dia 05 de Junho. Daremos conta das respostas que sejam dadas, dentro de um mês]

 

Exmas/os senhoras/es,

 

no passado Domingo, dia 05 de Junho, decorreram eleições legislativas, para eleger 226 mandatos para a assembleia da república (os restantes quatro serão eleitos no próximo dia 15, pelxs votantes no estrangeiro). Curioso pelas notícias que a dado momento davam como possível a eleição de um mandato para um partido recém-chegado, o PAN, resolvi fazer algumas contas, depois de contados os votos, para perceber em que moldes se processa a passagem do voto expresso para o número de mandatos no parlamento.

 

Para a história destas eleições ficou, como vencedor, o PSD, e como taxa de abstenção, a mais elevada desde 1976 numas eleições legislativas (41,09%), em que votaram 5.554.581 pessoas num país com mais de dez milhões de habitantes. Não ficou para a história, pelas contas que fiz, que o número de votos por mandato varia conforme o partido, numa prática em que um voto não equivale a um voto, mas sim em que diferentes votos, em diferentes regiões, têm pesos diferentes, nem ficou para a história as largas centenas de milhares de votos válidos que pura e simplesmente são descartados e inutilizados.

 

Vamos a números. O PSD com 2.145.780 (38,63%) votos ganhou 105 mandatos, o que dá uma média de 20.436 votos por mandato. O PS obteve 1.557.931 (28,05%) votos que lhe deram 73 mandatos, a uma média de 21.342 votos por mandato. O CDS obteve 652.278 (11,74%) votos e 24 mandatos (27.178 votos por mandato), a CDU com 440.863 (7,94%) votos elegeu 16 (27.554 votos por mandato). Finalmente, o BE com 288.118 (5,19%) votos elegeu 8 mandatos, o que dá uma média de 36.015 votos por mandato. Os números anteriores significam que cada 100 votos no PSD valem por 104 no PS, 133 no CDS, 135 na CDU e 176 no BE, ou seja e em média, 176 pessoas tiveram que votar no BE, 135 na CDU, 133 no CDS e 104 no PS para obterem o mesmo resultado que cada 100 que votaram no PSD. Os 62.496 votos no PCTP-MRPP e os 57.641 votos no PAN cairam em saco roto, pois nem um mandato foi conseguido por estes partidos, o que significa que nem 306 e 282 votos, respectivamente, chegam para obter o que em média 100 votos no PSD permitem, um mandato no parlamento. 246.254 votos válidos depositados nas urnas (não contam aqui brancos e nulos) foram completamente inúteis, devido a este sistema eleitoral, ficando sem representação. Contando votos brancos e nulos, ou seja, todos os votos de pessoas que saíram de casa para exercer o seu direito cívico, chegamos ao número de 469.611 (8,45%) votos que ficam sem qualquer representação, ou seja, mais que os votos conseguidos pelo BE ou pela CDU.

 

Pelo que me é dado perceber, a distorção surge através da existência de círculos eleitorais (o método de Hondt parece aqui um mal menor), que é de onde surgem os mandatos no parlamento. Como o país está dividido numa série de círculos eleitorais que elegem cada um uns quantos mandatos, acontece que em cada círculo ficam sempre uma quantidade de votos "órfãos", que não conseguem nenhum mandato e como tal não contam para nada. Vejamos alguns exemplos:

 

O círculo de Beja tem direito a três mandatos. Nestas eleições votaram neste círculo 74.832 pessoas, das quais 22.308 no PS, 19.011 na CDU, 17.711 no PSD, 5.462 no CDS e 3.890 no BE. Como há apenas três mandatos em jogo, que foram para o PS, CDU e PSD respectivamente (repare-se que diferentes votações dão direito a um mesmo mandato), os restantes 15.802 (21,1%) votos, incluindo os 5.462 votos no CDS e os 3.890 no BE, ficam “orfãos” e, juntamente com os votos sem representação dos restantes círculos eleitorais, vão engrossar a lista de votos que vão direitinhos para o caixote de lixo da história das eleições.

 

Vejamos o círculo de Lisboa. Por este círculo são eleitos 47 mandatos. Votaram 1.169.568 pessoas, das quais 398.789 no PSD (18 mandatos, 22.155 votos por mandato), 321.952 no PS (14, 22.997), no CDS 161.227 (7, 23.032), na CDU 111.729 (5, 22.346) e no BE 66.833 (3, 22.278). Foram directamente para o lixo 109.038 votos válidos, de pessoas que foram exercer o seu direito cívico e a cujos votos não se dá o mínimo valor. Repare-se que estes votos desprezados são superiores à votação do BE que lhe proporcionou três mandatos e quase tantos como os da CDU, que deram direito a cinco mandatos.

 

Vejamos agora um outro exemplo, tendo por consideração que se eliminavam os círculos eleitorais ou se incluía um mecanismo para corrigir a aberração acima descrita (que poderia ser, por exemplo, a transposição dos votos “orfãos” para um círculo nacional, elegendo-se assim mandatos sem filiação geográfica). O objectivo seria ter cada mandato eleito pelo número de votos mais semelhante possível, para haver verdadeira representação. Neste caso, teríamos os 5.554.581 votos que efectivamente foram colocados de forma válida nas urnas nestas eleições, a dividir pelos 226 mandatos elegíveis por Portugal, o que dá 24577,79 votos por mandato. Neste cenário, teríamos representada na assembleia não só um retrato mais fiel dos votantes em cada partido, como a presença de mais dois partidos, com dois mandatos cada, o histórico PCTP/MRPP com 62.496 votos, e o recém-chegado PAN com 57.641 votos, o que a meu ver só poderia enriquecer o debate no parlamento, com outros pontos de vista, representativos da vontade de dezenas de milhares de votantes.

Voltando à representação mais fiel da vontade expressa pelo voto, veríamos também o número de mandatos do PSD descer de 105 para 87 (2.145.780 a dividir por 24.577), do PS descer de 73 para 63, do CDS a subir de 24 para 27, da CDU a subir de 16 para 18 e do BE a subir de 8 para 12 (11,7).

PCTP/MRPP e PAN ficariam com 2 mandatos cada.

 

No cômputo geral:

PSD (38,63%) – terá 105 mandatos em 226 (46,46%), quando deveria ter 87 (38,49%).

PS (28,05%) – terá 73 mandatos em 226 (32,30%), quando deveria ter 63 (27,87%).

CDS (11,74%) – terá 24 mandatos em 226 (10,62%), quando deveria ter 27 (11,95%).

CDU (7,94%) – terá 16 mandatos em 226 (7,08%), quando deveria ter 18 (7,96%).

BE (5,19%) – terá 8 mandatos em 226 (3,54%), quando deveria ter 12 (5,31%).

PCTP/MRPP (1,13%) e PAN (1,04%) não terão qualquer mandato quando deveriam ter dois mandatos cada: Zero em 226 (0%) quando deveriam ter 2 (0,88%).

 

É interessante comparar a percentagem dos mandatos com a percentagem das votações, muito mais fieis num quadro de eleições sem círculos eleitorais.

De notar que no caso da eleição por proporcionalidade completa ficam por ocupar 15 lugares no parlamento, em que parte corresponde aos partidos que não chegam a eleger um mandato e outra parte corresponde aos votos nulos e brancos, que “elegem” cadeiras vazias, que no caso das presentes eleições seriam nove. Como um dos objectivos é reduzir o máximo possível o número de votos sem representação, os lugares a que correspondem os votos brancos e nulos deverão de facto ser equacionados, e porque não ficarem vazios? No caso dos partidos que não chegam a eleger um mandato, poderá por exemplo ser criada uma sala de representação dos micro-partidos, que depois traria ao parlamento as propostas consensualizadas ou votadas entre si, através dos cinco lugares que os 126.117 votos lhe permitiram obter, através do uní-circulo de proporcionalidade completa. No total seriam assim eleitos 225 mandatos, ficando um por atribuir devido a arredondamentos. Como estas contas são apenas uma introdução, esta questão poderá ser resolvida com um aprofundar da reflexão. Por outro lado, fica ainda por resolver a não-representação de alguns votos. Por exemplo, o PAN conseguiria dois mandatos com 57.641 votos, o que significa que se a este número se descontar 2x24577,79, sobram 8.485 votos com desigual representação. A meu ver esta situação poderá ser minimizada com uma alteração do número de mandatos, que contrariamente ao que vem sendo noticiado na comunicação social e parece ser a proposta de alguns partidos, deverá aumentar e não diminuir, de forma a que mais vozes e ideias possam estar representadas no parlamento.

 

Como conclusão, as contas acima mostram, a meu ver, que o sistema eleitoral padece de graves distorções que privilegiam os partidos mais votados, dando-lhes maior expressão do que na verdade têm, ao mesmo tempo que os partidos mais pequenos vêem a sua expressão ainda mais reduzida. Nada que seja novidade, pois há décadas que se alerta para esta questão, embora relembrar esta situação nunca seja demais para mostrar a urgência de uma reforma eleitoral.Acrescento que tenho plena consciência que tal situação surgiu historicamente devido ao critério de governabilidade, mas sendo a democracia portuguesa já madura, penso ser tempo de

de os partidos actuarem no parlamento em cooperação e não em competição, pelo que a não existência de maiorias fáceis não será
um entrave, antes pelo contrário, a uma democracia sã e cada vez mais verdadeira.

Termino manifestando o desejo de que muito gostaria de saber quais as observações que as contas acima e respectivas ilações lhe merecem e se o Partido Social Democrata tenciona apresentar alguma proposta nesta matéria.

 

Atentamente

 

Marcos Pais

Comentários

Depois do que se passou no

Depois do que se passou no rossio está aqui uma excelente reflexão...faltou talvez a soma de todos os votos que não foram contabilizados, claro que compreendo que teria de ser feito circulo a circulo o que pode demorar um bocado!
Quanto ao comentário anterior demonstra que infelizmente o sistema educativo não estimula o pensamento critico mas sim a formatação de robos com livros na cabeça e argumentos transcritos destes!

Tal "desconformidade" entre o

Tal "desconformidade" entre o número de votos, percentagem e número de mandatos é resultado do "nosso" sistema eleitoral (aliás, é o sistema eleitoral da maioria das democracias). De facto, esse sistema suporta-se na existência de círculos eleitorais plurinominais (vários mandatos por círxculo/distrito) e no método de Hont.

Por exemplo, o CDS-PP podia ter ficado com 8 dos deputados do PSD caso o método não fosse aplicado. E o BE teria perdido mais um deputado no círculo de Setúbal para o CDS-PP. Assim, neste método, cerca de 11.000 votos no CDS-PP pelo distrito de Setúbal foram simplesmente desperdiçados (quer dizer, mais ou menos, porque se não tivessem ido votar, a percentagem de votos por eleitor seria diferente e com isso mudaria igualmente muito do sistema eleitoral, podendo dar-se o caso da maioria dos mandatos ficar noutra força política).

aconselha-se aulas de Ciência

aconselha-se aulas de Ciência Política e de Direito Constitucional

Vamos estudar em conjunto?

Car@ Anónim@,

íamos agradecer o seu comentário mas pedir que elaborasse mais um pouco. Mas como o que escreveu é de tal forma reduzido e em nada construtivo, deixamos cair os agradecimentos, mantendo apenas o pedido de que escreva algo de construtivo e que permita um diálogo, em vez de apenas nos mandar estudar.

Cumprimentos