Talvez seja globalmente e a prazo uma boa coisa que o limite de endividamento dos EUA não seja aumentado e q a Administração Federal entre em incumprimento:
O imcumprimento – default - aconteceria por bloqueio da direita no Congresso á pretensão de Obama de se acordar um aumento de receita mediante a subida de impostos e endividamento suplementar; para isso seria necessária, uma votação favorável ao aumento do limite da dívida externa, porque a liquidez federal, anuncia-se, esgotar-se-á a 2 de Agosto deste sombrio 2011 (como se vê há quem ouse aproximar-se ainda mais do último dia...).
As consequências, acesamente discutidas por lá nestes dias mas quase ignoradas pelos media portugueses, seriam as mesmas que têm sido o quotidiano da UE desde o alerta grego e o nosso desde a 'era dos 4 pecs': degradação do rating nacional, migração dos capitais privados para o exterior e agravamento da ameaça de recessão; a efervescência social, glamourosa e rentável característica cultural daquele país e produto de exportação de sucesso, há muito que deixou de o ser, em especial desde 2008. Isso não será muito preocupante para quem não esteja pessoalmente envolvido (uns 100 milhões de afectados, estima-se, ou 1/3 da população) porque os 'States' já são uma federação policial há bem mais tempo. Em números, o acréscimo de fluxo de USD causado pelas iniciativas recapitalização e austeridade q tiveram lugar já neste mandato foi 1% para rendimentos do trabalho e de 83% para as 'corporations', sem melhorias notáveis no comércio externo nem no emagrecimento da dívida. Os esboços de revoltas populares, das quais a mais conhecida terá sido a que partiu do Wisconsing e está agora em lume brando, têm sido pouco divulgdas – ou pouco escutadas – no desconcerto ruidoso de cadeias assumidamente dedicadas á desinformação como a Fox News, merecedora do estrelato nesta especialidade, e dos inúmeros difusores de opinião sectária e militante, umas com estatuto religioso e tom mais ou menos fundamentalista, outros tentando equiparar-se.
A finança baseada em Wall Street estaria protegida pelo não aumento de despesas fiscais graças à inflexibilidade do partido Republicano no Congresso (e provávelmente pela promiscuidade com a finança global 'fantasma' , em q ninguém conseguiu tocar desde 2008, apesar das promessas de Sarkozy no encerramento do G20 de 2009).
Suponho q haveria efeitos cambiais internacionais: o dólar baixaria, aliviando, no panorama global, o EUR e sobretudo a dívida americana ao exterior (14 G$ actuais mais 1G$/ano presentemente) desvalorizar-se-ia, obrigando os países credores a reagir.
Sabendo que a generalidade das dependências financeiras no planeta se medem em USD, abrir-se-ia um novo quadro, favorável ao EUR e a todas as outras moedas, á valorização ainda maior do ouro e, parece-me, de todas as mercadorias e produções primárias (incluindo comida, com consequências mt más em África...). Aumentaria a pressão militar sobre as reservas de combustíveis fósseis, todavia limitadas pelos orçamentos e pela dispersão estratégica; aqueles aumentariam mais rápidamente de preço o que agravaria a inflacção. Poderia haver um abrandamento generalizado do crescimento, a relação de poderes internacional poderia equilibrar-se-ia mais e a causa ambiental poderia ser encarada de modo menos conflituoso e mais abrangente.
Suponho q os países BRIC teriam interesse e sageza em apostar nesta hipotética promessa de equilíbrio. A finança global tornar-se-ia então o inimigo mundial colectivo e estaria exposta ao fogo cruzado num terreno com menos obstáculos.
Se isso acontecer talvez os conceitos marxistas possam finalmente ser actualizados a estes novos tempos de capitalismo selvagem ultra-liberal: o Capital, nutrido pela apropriação da mais-valia do trabalho e sustentáculo do poder que o modelo sócio-político capitalista impunha terá agora como equivalente esta indefinida Finança Global 'Fantasma' (ou seja aos “mercados” sem rosto), alimentado pelas mais-valias liberalmente geradas pelas engenharias psico-sociológicas e psico-geográficas, actualmente já muito desenvolvidas teoricamente, poderosamente implementadas e livres de embaraços no ambiente das economias de mercado (suponho que quem acreditava na virtuosidade intrinseca dos mercados ou beneficiou com o resultado ou estará profundamente envergonhado).
Este novo conhecimento, que se apresenta como iniciático e obscuro mesmo á maioria das esferas intelectuais e governantes e, ainda muito mais, á comunicação social e aos agentes de ensino, derivou em warp speed dos ramos 'aplicados' da Psicologia e da Matemática apoiados no crescimento fantástico da capacidade de processamento de dados. Recorrendo ainda à investigação 'ingénua' nas áreas de humanidades (Sociologia, Direito, Antropologia Cultural, Comunicação, Pedagogia, Filosofia, Psicanálise, etc.), ás tecnicas e objectivos financeiros e estudando também os mecanismos de sujeição das crenças e religiões que ensinam a arte de, ambíguamente, tudo lamentar ou condenar e tb tudo consagrar.
A Democracia, que ainda veneramos – talvez porque a definição de Churchil é comparável a um intervalo aberto à direita e portanto infinito, o que quer dizer que não define nada – apoia-se no radical demos agora sematisado para um sistema de normas cuja interpretação, exercício e aplicação estão reservadas a especialistas e a que já não se associa, de facto e por definição, o carácter universal que os três lemas que o séc XVIII da nossa tradição cultural produziu.
O poder do Capital sustentava-se durante o relativamente civilizado séc. XX, na repressão (no 'pauzinho de amolgar ideologias' segundo certa garota corajosa e libertária), nas prisões, nas polícias, no simples poder físico. Da necessidade de enfrentar pauzinhos como esses, passámos a um novo campo de batalha intelectual, para o qual estamos muito mal preparados. Fora do campo das artes, aliás muito mercantilizadas, a hiper-especialisação e basificação do ensino e dos outros modos de difusão cultural, a falta de tempo e a desvalorização da boa preguiça, a obliteração de relacionamentos saudáveis e a perversão de outros, a redução do léxico afectivo e ausência de propostas de sistemas ideológicos novos, fez de nós um grande regimento sem bandeira nem guias, inconscientemente submisso e em grande parte disposto á escravatura democática moderna em troca de um vislumbre de segurança. Neste momento o único travão ao trabalho escravo é o salário mínimo legal, onde existe e se é cumprido.
Com alguma humildade os “ameaçados humanos sapientes” talvez tenham agora oportunidade para reflectir com sensatez e menos conflitos no facto de a Natureza não existir para seu serviço (como as maiores religiões que ainda são modernas ou os seus agentes ainda ensinam distraidamente) e que dinheiro e propriedade são invenções imperfeitas que violam o princípio Universal da tendência para a máxima Entropia.
Henrique M.
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