Centenas de pessoas de toda a Europa vão estar durante dez dias em Rosia Montana, Roménia, para "reivindicar o campo", num acampamento internacional de solidariedade sem precedentes. Começa hoje o Reclaim the Fields 2011.
Há dez anos que está em marcha o plano de, em plena Transilvânia, na Roménia, fazer a maior mina a céu aberto de toda a Europa. Às mãos de uma multinacional canadiana, desaparecerá a aldeia de Rosia Montana, quatro montanhas, centenas de quintas e florestas. Onde hoje existe uma povoação histórica, com dois mil anos, uma paisagem deslumbrante e estilos de vida em comunhão com a natureza, ficará um buraco gigantesco – ao ponto de poder ser observado do espaço. Tudo para, às toneladas por dia, alimentar a sede de ouro dos poderosos.
A menos que alguém o impeça. "A comida, a terra, as sementes, a água e conhecimentos indígenas são demasiado importantes para serem considerados mercadorias e centralizados à maneira capitalista", explica-se no apelo do Reclaim the Fields. "Tentamos resistir à lógica do lucro sobre nossas vidas. Tentamos praticar formas alternativas de viver e cultivar em conjunto. Por isso reivindicamos o campo!"
O objectivo do acampamento é apoiar a campanha para salvar Rosia Montana e resistir ao projecto mineiro, e capacitar a comunidade local para construir um futuro sustentável, através de inúmeros workshops e actividades agrícolas com os habitantes. Mas é também o momento de encontro de agricultores e activistas de toda a Europa, que desde há quatro anos fazem crescer o movimento Reclaim the Fields (http://www.reclaimthefields.org/)
"Queremos criar um espaço comum, partilhar experiências, realidades, técnicas e conhecimentos. Dar força às lutas locais. Encontrar as ligações entre nós e com outros movimentos anti-capitalistas. Celebrar em conjunto as nossas lutas.” O programa do encontro é participativo, aberto a todos, e deixará espaço para um ponto de situação do movimento e lançar novas iniciativas. “Espalhemos as sementes da resistência!"
Voltar à terra
Desde uma quinta biológica na Costa da Caparica até uma horta urbana em Berlim, passando por um terreno ocupado em Nantes - o Reclaim the Fields é uma rede de agricultores, hortelões, activistas e colectivos de toda a Europa, dispostos a voltar à terra e reassumir o controlo da produção alimentar. “Estamos determinados em criar alternativas ao capitalismo através da produção e de iniciativas de pequena escala, cooperativas, colectivas, autónomas e orientadas para as necessidades reais. Pondo a teoria em prática, e ligando a acção prática local às lutas políticas globais.”
Desde 2007, o movimento tem organizado acampamentos europeus, acções directas para recuperar os campos, e participado em mobilizações globais com a Via Campesina ( http://www.viacampesina.org/). “Há uma longa história de lutas pelo acesso e controle da terra na Europa e noutras partes do mundo, e é importante partilhar a diversidade das experiências actuais.”
A ideia é também redefinir a palavra “agricultor”. Por exemplo: quebrar fronteiras entre agricultores profissionais e consumidores, pela ideia de re-apropriação colectiva da produção alimentar; conectar as hortas urbanas com a agricultura camponesa; conectar as iniciativas consumidor-produtor com as ocupações de terras...
“Gostamos de pensar no Reclaim The Fields como uma constelação, dando visibilidade à grande variedade de lutas, mostrando cada pedaço de terra que conseguimos recuperar, cada semente que produzimos, começando a experimentar aqui e agora as mudanças que propomos para toda a sociedade. Falar sobre estrelas é, na verdade, um convite a tocar no chão, voltar à terra, e organizar-nos para contribuir para as mudanças sociais de amanhã.”
Defender a terra
“Tenho orgulho em receber tantos estrangeiros que apoiam a nossa luta para travar este projecto que vai destruir a nossa casa, comunidade e cultura”, diz Eugen David, que está a frente da campanha local “Save Rosia Montana” (http://www.rosiamontana.org/en/ ). “A nossa aldeia tem uma longa história de resistência e precisamos de solidariedade internacional.” Ou não fosse este um mega-projecto típico do neo-liberalismo, com um carácter naturalmente internacional (uma grande empresa de um país rico a explorar os recursos de comunidades pobres), e com perigos ambientais se estendem bem para lá das fronteiras da Roménia.
"Save Rosia Montana” tornou-se a maior campanha ambiental na frágil sociedade civil romena. Os objectivos? “Parar a mina; consciencializar sobre os riscos para a sociedade de minas com base em cianeto e minas a céu aberto, e banir o cianeto da Europa; fortalecer laços entre a oposição local e activistas de todo o mundo; promover a agricultura sustentável de pequena escala e o eco-turismo como alternativas aos grande projectos mineiros.”
Em Agosto passado, o presidente romeno, cuja campanha eleitoral foi financiada pela empresa mineira canadiana, acusou os habitantes de "bolchevismo", por estarem a defender as suas terras. E no fim desse mês surgiu mesmo uma proposta de lei para permitir às empresas privadas expropriarem à força os habitantes das áreas dos projectos.
"A história de Rosia Montana é importante para todo o mundo. Vemos grandes empresas a tentar pisar comunidades na sua busca de lucro – mas as pessoas não vão desistir facilmente, e estamos a defender as nossas casas e a nossa terra", diz William Ronan, agricultor britânico activo no Reclaim the Fields. "Estou ansioso por ver várias comunidades juntarem-se nesta linda região e apoiarem esta luta.”