“No dia 17, queremos ver 20 mil pessoas invadir Manhattan, montar dormitórios, cozinhas, barricadas pacíficas, e ocupar Wall Street durante vários meses.” Foram, na verdade, alguns milhares os jovens que responderam ao apelo e se concentraram ontem (sábado) em Nova Iorque contra a «ganância corporativa» dos bancos e empresas.
Há meses que a revista radical Adbusters (http://www.adbusters.org/) apelava a que dezenas de milhares de pessoas se juntassem para, num protesto pacífico, ocupar Wall Street, o coração financeiro dos Estados Unidos. A ideia era recriar ali o espírito da praça Tahir e das acampadas espanholas.
No mesmo dia, por toda a Europa, celebrou-se com várias acções o
“Dia anti-bancos” (http://antibanks.takethesquare.net/). E o grupo “hacktivista” Anonymous, que se juntou ao protesto, lançou uma nova ferramenta de ataque a sites de grandes empresas.
Mostrando o que é a democracia dos EUA, a polícia de Nova Iorque encheu as ruas e bloqueou os quarteirões de Wall Street. Sem distúrbios, a multidão encontrou locais alternativos e acabou por se concentrar no Zuccoti Park, entretanto rebaptizado “Liberty Plaza”. A polícia mostrou-se confusa com o carácter descentralizado da manifestação: por várias vezes exigiu “falar com o líder”, e por várias vezes recebeu por resposta, invariavelmente, “não há líder”.
Após a decisão da assembleia popular em passar a noite na rua, centenas acamparam na praça, e hoje mais pessoas continuam a juntar-se. Na internet fala-se do espírito positivo dos activistas, da organização informal, da comida trazida por habitantes da cidade, do espectáculo que está a ser preparado para esta noite. Muitos manifestantes falam em permanecer em Wall Street durante semanas ou meses, num grito de revolta contra o capital financeiro. Na segunda-feira, a polícia já não poderá fechar Wall Street, e é nisso que o movimento aposta.
Das televisões aos jornais, dos media locais aos internacionais, tem havido um blackout total sobre o movimento. As pessoas estão a apostar nas redes sociais para passar a informação. Tem havido transmissão ao vivo do protesto no site do Global Revolution (http://www.livestream.com/globalrevolution ) (onde contra-manifestantes de direita têm enchido os comentários de spam, com slogans como 'F**k Communist! F**k Socialism!'), no site do protesto (https://occupywallst.org) e no do Adbusters. A hashtag no Twitter é #OccupyWallStreet, mas, porque o próprio Tweeter tem alegadamente estado a bloqueá-la, outras tags têm surgido (#TakeBackWallStreet, #OurWallStreet). Mas se em Espanha ou no Egipto as redes sociais potenciaram o movimento nas ruas, nos EUA têm sido mais as pessoas a assistir ao streaming dos vídeos a “twittar” sobre o assunto do que aquelas que saem de casa.
O Adbusters propôs dar um objectivo claro e amplo ao protesto - acabar com a corrupção financeira e separar o dinheiro da política – que fosse, por sua vez, capaz de atear um movimento cada vez maior, diversificado e imprevisível. Para já, tem mostrado uma forma de protesto, um número de pessoas e mensagens políticas a que raramente assistimos no Estados Unidos.
O apelo do Anon (http://anonops.blogspot.com/), um colectivo pela liberdade na internet e um dos vários grupos que se juntou ao protesto, é elucidativo:
“1. Nas cidades onde os protestos continuem activos, que cresçam, se organizem, aumentem o grau de consciência. Nas cidades em que não há protestos, que eles sejam organizados e quebrem o sistema.
2. Convocamos os trabalhadores não apenas a entrar em greve, mas a tomar colectivamente os seus locais de trabalho e organizá-los democraticamente. Convocamos professores e alunos a agirem juntos e a leccionar democracia, não apenas os professores aos alunos, mas os alunos aos professores. Ocupem as salas de aula e libertem as cabeças juntos.
3. Convocamos os desempregados a apresentarem-se como voluntários, a aprenderem, a ensinarem, a usarem as habilidades que tenham para se sustentarem como parte da comunidade popular que se revolta.
4. Convocamos a organização de assembleias populares em cada cidade, cada praça, cada câmara municipal.
5. Convocamos a ocupação e o uso de prédios abandonados, de terras abandonadas, de todas as propriedades ocupadas e abandonadas pelos especuladores, para o povo e para cada grupo que organize o povo.”