[actualização: alguns erros ortográficos corrigidos]
Ontem tive a oportunidade de participar na manifestação d@s indignad@s, como se convencionou chamar. Caminhámos do Marquês de Pombal ao Parlamento, com muita gente e reivindicações diversas, mas tudo isso pode
ser visto/lido na comunicação social.
Gostaria por isso de me debruçar sobre outros aspectos que não são tão facilmente perceptíveis para quem de fora toma contacto com o acontecimento, através da comunicação social. Deixo também este texto como uma reflexão para quem esteve presente no local e para quem se ocupa com a organização deste movimento (organização essa que, recordo, pode ser partilhada por qualquer pessoa que o deseje e tenha para tal disponibilidade).
Ocorrem-me três aspectos a comentar: a) a organização da chamada assembleia popular; b) as propostas apresentadas; c) a oportunidade/hora das votações. Outros pontos haveria a discutir, como a forma de tomar as decisões, a aparente censura de que algumas pessoas que pretendiam falar terão sido alvo, a tentativa de desesperado controlo que a organização tentou ter sobre o comportamento d@s manifestantes, etc. Mas os três aspectos acima referidos e abaixo descritos já dão pano para mangas.
a) Estando pelas 19h ainda bastante gente presente diante do parlamento, pela minha observação entre 5.000 e 10.000 pessoas, começa a chamada assembleia popular. Esta funcionou com inscrições para tomar a palavra. Ponto. Nada mais do que isto. Quem queria falar inscrevia-se e aguardava pela sua vez para chegar ao microfone, o que aconteceu com cerca de 50 a 100 pessoas (não contei as intervenções). Ora 50 ou 100 é 1% do número de pessoas inicialmente presentes no local, o que significa que com esta forma de funcionamento a chamada assembleia popular deixou fora de qualquer possibilidade de participação 99% das pessoas presentes, sendo por isso mais aparentada com um comício, o que aliás é bem mais compatível com muitas das intervenções inflamadas que ocorreram.
Se queremos que a democracia se fortaleça e aprofunde, há que pensar outras formas de organização assembleária. Já no Rossio se (des)organizavam as assembleias desta forma, com os fracos resultados que se conhecem.
b) As propostas apresentadas a votação foram aquelas que as pessoas entenderam por bem fazer. Algumas dessas propostas foram a expropriação da banca, marcação de novas assembleia e manifestações ou ocupação do programa da TVI Casa dos Segredos. As pessoas votavam cada proposta de braço no ar. Ora gostaria de saber como é possível votar (decidir sobre) uma proposta de expropriação da banca, sem saber nada sobre como isso se irá fazer, de que contornos mais específicos se reveste, quem fica responsável/coordenador por tal, etc. Igualmente com a proposta que eventualmente será a mais mediática de todas, a ocupação da Casa dos Segredos. Como tencionam as pessoas que propuseram, bem como as pessoas que aprovaram esta proposta, concretizá-la? Todo este processo está muito verde e padece carece de seriedade e credibilidade. No caso de a Casa dos Segredos não vir a ser ocupada, um rude golpe será desferido na já pouca (porque ainda não conquistada) credibilidade destas assembleias.
c) Para finalizar, a questão da hora a que foram efectuadas as votações das propostas. Foi uma hora tardia, depois de várias horas e vários discursos do palanque, em que me parece que restariam entre 1.000 a 2.000 pessoas no local, ou seja, uma pequena parte das pessoas que estiveram presentes no início da chamada assembleia popular. Mais uma vez, este comportamento da parte de quem coordenava os trabalhos parece carecer de seriedade e credibilidade, ferindo com gravidade um processo que dá os primeiros passos e que deverá ser ponderado com todo o cuidado.
Em jeito de conclusão, percebe-se que é imperioso inverter este rumo, pensando as assembleias como um local de construção de saber e de emancipação e não como um palanque de exposição de pessoas mais atrevidas e eloquentes. É imperioso usar metodologias comprovadas de organização da participação popular. Temos que nos socorrer de profissionais que fazem do estímulo à participação pública o seu mester, para que com eles/elas possamos criar assembleias verdadeiramente participativas. É imperioso também que as organizações/associações/colectivos das sociedade civil sem vínculos partidários se assomem a este processo, minimizando a influência que certos partidos com respectivas agendas têm, para que as assembleias sejam uma verdadeira mostra da vontade das pessoas e não da vontade de certos partidos ou facções.
Um indignado
Comentários
Citado no Global Voices Online
Citado aqui:
Portugal: 15 de Outubro em Vídeos e Imagens dos Indignados
http://pt.globalvoicesonline.org/2011/10/17/portugal-15opt-fotos-videos/
Existem inumeros formatos de
Existem inumeros formatos de encontro , reunião, discussão e tomada de decisão. Recomedo a metodologia "Future Search". Leva tempo, leva! Mas entretanto há tantas e tantas acções criativas a fazer, sem violência ! Vejam o exemplo do Brasil com as vassouras em nas praias de copacabana! Lindo!
Às vezes basta alguma criatividade e já está! às vezes nem são precisas palavras, atos! às vezes colocar uma flôr num deserto já faz toda a diferença.
Eu não estive nesta manif porque estava a trabalhar e nem sei se foi bom porque na anterior fiquei frustrada com o "amadorismo" das interenções, em nada credíveis. Não sei sequer quem lidera o processo e se o lideram mas acho que deve haver cautela nas respostas. Eu não concordo com o poder da banca, é certo, mas pensar soluções radicais pode ser ainda pior. Hoje já não há forma de travar o processo de evolução da sociedade e há que pensar, sim, como o integrar de forma mais justa. O radicalismo nunca funcionou e só serviu como catarse de meia dúzia prejudicando uma maioia popular ingénua, séria e medrosa.
Discursos e 2/3...
Do que assisti da assembleia popular de sabado trataram-se essencialmente de discursos de apelo ao fim o capitalismo, revolta e etc..Quem participa numa manisfestação ás 15h de Sabado abdicando dum mergulho na praia, passeio com filhos, etc.. já sabe e tem completa consciência do que foi dito pela maioria dos oradores por isso, salvo raras excepções, o que aconteceu foi uma perda de tempo (no minimo demasiado tempo para se perceber a inconsequência daquela assembleia) o que se pode perceber pela desmobilização!
Depois é completamente desonesto indicar que a decisão se faz por uma maioria de 2/3 que foram apurados apenas pelos gritos da escadaria e alguns braços levantados...não me pareceu que houvesse tecnologia ou algum iluminado que realmente contasse os votos!Nesta parte os consensos são preciosos, quem se opõe que se faça ouvir em vez de apurar os votos desta maneira (já tinha assistido a isto em concursos de karaoke o que não abona a meu favor, mas principalmente da assembleia).
Assim os indignados portugueses continuam a ser velhos do restelo em vez de mobilizadores de ideias sérias que possam surgir da população!O erro do Rossio mantêm-se pois parece-me que a maioria dos organizadores/participantes estão condicionados pela sua agenda partidária.
As formas de resolver isto é realmente começar por entender formas de decisão diferentes como e deixarmos-nos de circos...
Processos
Faltando-me o tempo para um comentário mais longo, foco-me apenas no seguinte:
«10.000 pessoas * 3 minutos / 60 minutos = 500 horas
500 horas / 24 horas = 21 dias ininterruptos de assembleia. »
É absurdo pensar que o autor do artigo estava a propôr tal coisa. Aliás, é bem claro quando diz «se queremos que a democracia se fortaleça e aprofunde, há que pensar outras formas de organização assembleária» ou, mais à frente, «É imperioso usar metodologias comprovadas de organização da participação popular. Temos que nos socorrer de profissionais que fazem do estímulo à participação pública o seu mester, para que com eles/elas possamos criar assembleias verdadeiramente participativas.»
O que há aqui de incompreensível? É preciso outros métodos.
Há metodologias, experimentadas e visivelmente emancipatórias (no sentido de participação/poder), para isso. Não são perfeitas e nem sempre funcionam, mas geralmente resultam melhor do que a estrutura estilo comício
Quais?
Por exemplo esta (assembleias de bairros/temáticas, com delegação):
http://asambleapopulardemadrid.blogspot.com/p/metodologia-asamblearia.html
Ou estas (processos grupos-assembleias):
http://www.degrowth.org/Working-groups-methodology-results-and-papers.12...
http://colportage.decroissance.info/doku.php?id=rencontres:2006:brens:no...
Demora mais? Sim, demora mais, mas não 21 dias.
É um processo. Que, aliás, não é compatível com afirmações desta índole: «"As pessoas querem respostas rápidas e não discussão horas a fio”, defendeu uma das manifestantes, que se identificou apenas como Raquel» (in Público). Gostaria de saber quais são as respostas rápidas, porque ainda não encontrei nenhuma resposta decente.
Claro, o que a Raquel propõe é trazer uma agenda, um conjunto de ideias, que alguém achou que eram úteis para resolver a crise - e convencer as massas de que são boas ideias, a ser seguidas.
Como eu não acredito em respostas simples, só vejo um caminho: trazer a sociedade civil, em toda a sua complexidade, a tomar o poder, a discutir propostas, a desenvolver alternativas. E isso leva tempo e requer processos de verdadeira democracia de base.
Gualter Barbas Baptista
Como melhorar o processo?
Muito obrigado por terem feito este comentários que me ajudaram a pensar.
Os links que o Gualter enviou são de facto úteis pois permitem-nos avançar a discussão e passar da contestação destes modelos de assembleias para discutir como podemos fazer melhor.
Parece-me que para que estes modelos sejam implementados é necessário trazer estas e outras opções para os momentos de organização da próxima manifestação.
E mesmo que não haja consenso sobre os métodos dentro da diversidade de organizações e pessoas que assumem a organização destas manifs, penso que o que há a fazer é experimentar em paralelo, talvez até com dois sistemas de som, com uma equipa de facilitadores prontos a facilitar, etc. Não será uma divisão mas antes a criação de mais espaços para mais pessoas poderem participar em reuniões de grupos ou assembleias paralelas.
O que de facto há é que discutir estes modelos, definir um novo (ou o mesmo com melhorias) e experimentar. E depois avaliar. e continuar a melhorar.
Mas se temos propostas para melhorar, então temos de nos envolver com a organização ou ao lado dela... e inovar e ajudar à (r)evolução!
Envolver
Sim, é preciso envolver nos processos e o mesmo apelo lancei a várias pessoas e colectivos quando estive em Portugal, há pouco mais de um mês.
Eu não estou neste processo de Lisboa porque a distância me separa. Mas estive na sua origem em Maio e senti todas as pressões para que ele fosse rápido e manipulador, em vez de lento e participado - como aliás se tem feito em Espanha, com resultados de emancipação do movimento social muito mais interessantes (embora naturalmente tenham um ponto de partida distinto). E estou, obviamente, envolvido no processo de revolução global, internacionalista e local :)
E sou também da opinião que os comentários de bancada (isto é, pela esfera virtual) não devem ser vistos como críticas vazias ao trabalho que outros meteram no processo, mas sim como um contributo possível e interessado por parte de alguns (que estão longe, têm mobilidade reduzida, têm recém-nascidos, vão ter recém-nascidos, têm gente doente na família, etc.).
Gualter Barbas Baptista
matemáticas e magnitudes
Apesar de todas as críticas que eu próprio possa tecer acerca do funcionamento das assembleias populares, alguma coisa aqui não bate certo.
Vejamos ponto por ponto alguns dos respeitáveis argumentos que o Sr. Indignado invoca:
a) 1% de vozes e 99% de silêncios é tramado - eu diria mais, é o caminho mais rápido para a ditadura; na década de 70 chamava-se a isso a «maioria silenciosa»... Vamos fazer regredir o tempo; regressemos às 15 horas do dia 15 de Outubro de 2011. Refaçamos tudo quanto fizemos, mas agora corrigido à luz clara dos erros cometidos. Será um prazer, sem dúvida. Reiniciemos essa nossa assembleia, dando agora a palavra a 10.000 pessoas que certamente têm muitas coisas urgentes para dizer (além da melhor escolha para a selecção nacional, claro está) e carradas de propostas concretas a apresentar. Por razões práticas, limitemos o tempo de intervenção de cada pessoa a 3 minutos. Vamos lá tentar fazer isto com o rigor, a hombridade e a isenção que o Sr. Indignado sugere. Temos então:
10.000 pessoas * 3 minutos / 60 minutos = 500 horas
500 horas / 24 horas = 21 dias ininterruptos de assembleia.
Mas é claro que, ainda assim, isto não está certo - as pessoas têm de comer, de dormir, de cagar, de mijar, de ir a casa dar uma queca, etc. Estipulemos então um horário de trabalho assembleário de 8 horas diárias, 5 dias por semana, para não atentarmos contra os princípios humanitários pelos quais nós próprios tanto lutamos.
Por conseguinte:
Se numa semana de 7 dias produzirmos 5*8=40 horas de trabalho assembleário, então 500 horas de trabalho terão de ser produzidas em:
X = 7 * 500 / 40 = 87,5 dias
(ou seja aproximadamente 3 meses, se houver algum feriado pelo meio)
Isto sim, meus amigos, isto é que seria um verdadeiro processo democrático e mobilizador.
c) A assembleia arrastou-se, e quando chegou o momento da votação já só estariam umas 1000 pessoas (uma delas não era eu próprio, que entretanto vim para casa dormir uma soneca, na tentativa de manter em bom estado os meus 60 anos de debates e combates). Portanto, vamos lá ver se entendo bem a lógica do Sr. Indignado: o que esteve errado não foi a hora tardia da votação, mas sim a precipitação da votação!, que apenas deveria ter sido realizada 90 dias depois. Sem dúvida o que nos faz falta nas assembleias é este formidável rigor lógico.
b) Tanto quanto sei, foram aprovados vários apelos. Obviamente a assembleia apenas pode apelar a certas coisas; não pode fazê-las - uma assembleia de 10.000 pessoas não pode fazer uma greve nacional, não pode suspender o pagamento do serviço da dívida, não pode nacionalizar a banca e sujeitá-la ao controle das populações. Pode apenas apelar - tal como eu não posso ser honesto por outrem, apenas posso apelar a que esse outrem seja honesto comigo.
Qual terá sido a parte difícil de entender aqui? Vou deitar-me a adivinhar: será o significado de nacionalização da banca? Se calhar é por aí. O que é a nacionalização da banca? Como se faz? Ninguém se deu ao trabalho de explicar. Está mal. Foi desonesto.
Ora bem, tiramos daqui uma conclusão formidável: em atenção às pessoas que vêm às assembleias discutir os problemas comuns da população sem no entanto se documentarem sobre eles, antes de iniciarmos a assembleia devemos fazer cursos intensivos e seminários sobre todos os temas de actualidade nacional e internacional que afectam a vida comum dos cidadãos portugueses, para que não se corra o risco de virem elas a uma assembleia popular sem fazerem a mínima ideia do que se está ali a debater.
Mas um tal conjunto de cursos e seminários duraria, pelos meus cálculos, coisa de 3 anos - e é se for a despachar...
Ou seja, a votação dos magnos assuntos propostos na assembleia foi forçada, foi precipitada na brutal quantia de 3 anos e 3 meses, com o óbvio fim de enganar os tolos. Mais uma vez estou impressionado com a lógica poderosa que nos é aqui proposta.
e) Não quero, sinceramente não quero ofender ninguém, quero mesmo ser compincha e marchar solidariamente ombro com ombro, mas... é preciso uma certa candura (ou juventude, ou inexperiência, ou cegueira, eu sei lá) para pensar que uma assembleia de 100.000, ou mesmo 10.000 pessoas, pode ser democrática, esclarecedora e equitativa. Uma assembleia dessa magnitude, quaisquer que sejam os métodos usados, chama-se, com toda a propriedade, comício. A palavra tem origem no lugar onde os antigos Romanos reuniam para discutir os seus assuntos. Deu no que deu, como sabe quem aprecia ler livros de História - uns quantos césares apunhalados e umas quantas cidades incendiadas.
d) Não existe a mais pequena dúvida de que todas as organizações políticas e partidárias sofrem dum lastimável vício seminal congénito: a ganância do poder. Esta ganância do poder expressa-se na vida comezinha e quotidiana através de horríveis actos concretos (por vezes mesmo brutais, chegando a haver quem escreva preto no branco, ainda há poucos dias: «Silenciem esse Fulano "by all necessary means"»), actos de ganância de tudo controlar sem dar ouvidos a ninguém - e um dia mais tarde, quando finalmente chegam ao poder e já não estão a brincar a feijões, a ganância do dinheiro. É um facto, é histórico, é presente, não tenho nada a contrapor.
Como conseguem eles fazer isso impunemente? - à custa de militância, persistência, combatividade. Lastimo muito desfazer mitos, mas na verdade nem sequer é à custa de retórica, que aliás é paupérrima na maioria dos casos. Trata-se apenas de labor militante, puro e duro, apesar de geralmente bastante tosco. E vencem apenas porque os caguinchas que se escondem debaixo da mesa e choramingam «mamã, aquele menino roubou-me a bola» não são capazes de dar mostras da mesma vontade, da mesma persistência, da mesma militância - abandonam o terreno e entregam o castelo.
Mas, espera aí... esses choramingas que se escondem debaixo da mesa não serão os mesmos que, pelas mesmas razões, pelos mesmos métodos e pelos mesmos comportamentos, permitem passiva mas objectivamente que os políticos que já não jogam a feijões, que jogam com o nosso dinheiro, façam o seu jogo?
Um Indignado que subscreve aquilo que diz: Rui Viana Pereira
bateu
«mamã, aquele menino roubou-me a bola»..., pois é, não tem desculpa, é fraco, triste e falo pela parte que me toca. Também, tudo se vota com celeridade, a maioria já sabe o que quer e não quer saber das rações dos poucos que choramos por baixo da mesa. Bem, esta bateu-me, obrigado mais uma vez
Caro Rui Viana Pereira,
Caro Rui Viana Pereira,
agradeço-lhe o seu extenso comentário ao meu texto. Embora por vezes me pareça ter usado de alguma ironia, muito do que disse permanece no campo da argumentação, pelo que é possível entabular uma conversa construtiva.
Vamos ao primeiro ponto, a participação na assembleia e o formato em que esta decorreu. As suas contas parecem-me claras como água e a elas nada há a apontar, a não ser que se baseiam na manutenção do formato da assembleia de ontem. Ora precisamente as contas que nos mostra apoiam as minhas palavras, ao demonstrarem que aquele formato impossibilita, per se, uma participação alargada. Daí eu dizer que é necessário reflectir em outras formas de organização assembleária. Não tenho a presunção de conhecer profundamente metodologias de organização assembleária, daí ter dito que é imperioso encetar colaboração com profissionais dessa área. Mas por uma questão de ilustrar o meu argumento, reflictamos sobre uma assembleia com 10.000 pessoas, algo semelhante ao que se passou ontem. Em vez de termos uma pessoa a falar à vez, por 3 minutos, totalizando 500 horas de assembleia (para apenas uma ronda, nem estamos a falar aqui de debate), poderíamos ter 2.000 pessoas a falar em simultâneo, resultado da divisão da assembleia em grupos de 5 pessoas. Isto significaria que em 15 minutos (5 pessoas x 3min/cada) toda a gente se poderia ter expressado. Saindo desses 2.000 grupos um/uma porta-voz, para formar novamente grupos de 5 pessoas/porta-vozes, teríamos 400 grupos. Novamente, cada pessoa falaria três minutos, agora resumindo os pontos que recolheu do seu grupo, vendo-se quais os pontos em comum. 15 minutos mais 5 para se fazer a junção de pontos, dá 20 minutos. Juntando aos 15 anteriores e somando 5 minutos para questões logísticas de dissolução e junção de grupos, estaríamos neste momento com 40 minutos de assembleia. Nova dissolução, nova junção, em 80 grupos. Mesma situação, mais 20 minutos. Novo processo, resultando em 16 grupos, mais 20 minutos. Total = 80 minutos, arredondemos a 90, hora e meia. Neste momento, estou em crer que @s 16 porta-vozes estariam em condições de partilhar com o total da assembleia o resumo dos pontos/preocupações recolhidas. 16 x 3min = 48min, que se somam à hora e meia anterior, totalizando 138 minutos (2h18m). Arredondemos a duas horas e meia. Em duas horas e meia, todas as 10.000 pessoas poderiam ter manifestado a sua opinião, ter-se-ia recolhido e compilado as várias opiniões e construído uma visão comum e fidedigna da vontade, anseios, preocupações principais das pessoas presentes no local. Resumindo/adaptando:
10.000/5=2000 (15min+5 para reorganização de grupos)
2.000/5=400 (20 min +5 para reorganização de grupos)
400/5=80 (20 min +5 para reorganização de grupos)
80/5=16 (20 mim+5 para reorganização de grupos)
16x3min= 48min
Total: 143min (2h23m)
Em vez deste processo que estimula a participação alargada, optou-se por ter um palanque com discursos. São diferentes opções, com diferentes resultados. Não questiono que a minha opção possa parecer ingénua e os tempos inviáveis, pelo menos nos primeiros meses de prática. Mas seria um passo na direcção de algo novo, em vez do caminho com um certo cheiro a mofo que as actuais ditas assembleias parecem querer percorrer.
Acima de tudo, aquilo que valorizo na minha abordagem é o processo de aprendizagem da expressão e do diálogo alargado, sem líderes carismátic@s nem discursos inflamados. Aquilo que se deseja praticar e que é uma marca distintiva do movimento que nasceu em Espanha em Maio, que me parece ser a nossa inspiração, é a prática democrática. Se esta leva ao cancelamento da dívida, ao fim da OTAN, ao regresso do Lince Ibérico ao Barrocal Algarvio ou ao fim do automóvel de combustão interna, é algo que ninguém sabe. Mas sejam quais forem as decisões tomadas, estaremos cert@s que serão democráticas. Sem adjectivos.
Quanto ao que o Rui Viana chamou apelos, se encarados desta forma, a situação muda de aspecto, claro. Se a expropriação da banca, as manifestações marcadas, a invasão da Casa dos Segredos, se tudo isso e demais coisas aprovadas, são meramente apelos, então nada há a acrescentar. A assembleia apela à expropriação da banca, sim senhor, é bonito. Mas não foi isso, em meu entender (embora eu possa ter percebido mal, claro está) que aconteceu. As propostas a votação parecem-me ter um carácter mais vinculativo, como se a assembleia fosse simultaneamente órgão deliberativo e executivo. Exemplo: quando se aprovou que nessa noite se ficaria no local, fazendo uma vigília até ao dia seguinte, isso não é um apelo a que alguém fique, isso é (deveria ser) uma responsabilização de quem vota a favor para que fique no local. Caso contrário melhor seria que se abstivesse. Da mesma forma, quando se vota a favor da invasão da Casa dos Segredos, isso vincula as pessoas que votam a favor de tal iniciativa a organizarem-se de forma a realizar tal proposta. Resumindo, não estamos a falar da aprovação de moções ou apelos, estamos a falar de propostas concretas de acção.
Para finalizar, quanto à militância, é verdade que se não existiram outros movimentos sociais a participar nas reuniões preparatórias do 15Ó, tal se deve a esses mesmos movimentos. Mea culpa portanto, embora eu tenha a atenuante de viver no Baixo Alentejo. Não dará para reunir por vídeo conferência?
Cumprimentos
experimentemos, a ver se resulta
caro Marlexis,
gosto imenso das suas (e doutros) propostas de experimentação de novos modelos de debate público. Se calhar a falta de coragem de experimentar e arriscar (até conseguir encontrar novas e melhores soluções, arrostando com os erros que necessariamente ficarão pelo caminho) é um dos "pecados" mais generalizados - creio que se chama "conformismo", ou coisa assim, e eu próprio se calhar às vezes também resvalo para aí, sem querer...
Esperemos que, com o correr do tempo e das acções de rua, seja dada uma oportunidade de experimentação a algumas das propostas aqui feitas. Seria sinal de que vivemos de facto, e não de boca, um tempo de mudança e transformação.
Ah, e já agora, obrigado pela paciência de responder a um meu comentário tão longo e irónico.
Saudações
Rui
assomar - Conjugar v.
assomar - Conjugar
v. intr.
1. Aparecer (em sítio elevado).
2. Subir.
3. Principiar a manifestar-se, a deixar-se ver confusamente.
v. pron.
4. Ter assomo de ira.
5. Principiar a animar-se (com a bebida).
6. Colocar-se em alto.
No resto, bem dito.