Em Agosto de 2009 soou o apelo à ocupação da ZAD - em Nantes, França, há 40 anos que se lutava contra a construção de um novo aeroporto. A luta local ganha dimensão internacional e torna-se símbolo da resistência ao capitalismo. Em Julho passado, junta pessoas de toda a França e outros países num acampamento para dizer não ao G8 e ao G20. Amanhã (quinta-feira), a ZAD é o tema do jantar popular do GAIA, no RDA69.
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Lorenzo acaba de chegar de Paris. De mochila às costas, procura um local para montar a tenda. “É preciso que a luta contra o aeroporto se alargue, que venham novas pessoas e que partilhem informação nas suas cidades de origem”, diz. É uma das duas centenas que durante o mês de Julho se juntou à “aldeia internacional contra o capitalismo”, em Notre-Dame des Landes, nos arredores de Nantes, onde está prevista a construção de um novo aeroporto. Sob o lema “o capitalismo está em todo o lado – nós também”, o objectivo foi dizer não às cimeiras do G8 e G20 que este ano aconteceram em França.
Lorenzo participou no último acampamento Climate Action aqui em Nantes, em Agosto de 2009, quando centenas de pessoas se juntaram para debates e acções directas contra o projecto do aeroporto. Foi aí que surgiu o apelo à ocupação das terras. Agora, traz o desejo de “continuar as discussões, reencontrar pessoas, ter um impacto ambiental mínimo e participar na luta local”.
Para ele, “a ecologia tem uma dimensão social: tem de ser anti-autoritária.” Por isso, para o tempo que vai passar no acampamento espera “bons momentos de vida colectiva, tomadas de decisão horizontais, funcionamento em autogestão.”
Já se montaram cozinhas e bar comunitário, biblioteca, espaço para crianças, ponto de informações e boas-vindas... Todos os dias chega alguém e alguém parte. São centenas durante o fim-de-semana, em que há concertos, debates e refeições partilhadas. Algumas dezenas pretendem mesmo passar aqui a viver – e juntar-se assim às muitas pessoas que desde há três anos decidiram vir ocupar a ZAD.
Uma zona a defender
O projecto é antigo: Construir um aeroporto internacional megalómano, apesar do aeroporto já existente em Nantes e de vários outros nas proximidades. Tornar a região num grande pólo económico, com novas autoestradas e um porto aumentado. Despejar betão e destruir 2000 hectares de terras agrícolas e florestas. A despejá-lo estará a multinacional francesa Vinci – a empresa de construção civil e obras públicas com maiores lucros em todo o mundo.
À associação de camponeses em luta e às manifestações que começaram logo nos anos 70, juntaram-se desde há três anos muitas pessoas que dedicam as suas vidas para proteger o espaço previsto para a construção. A ZAD, “zonne d’aménagement différéé”, é hoje a “zona a defender” - um território ocupado por cerca de cem pessoas (um número sempre flutuante).
“Os nossos desejos, ao vir habitar no lugar previsto para o aeroporto, são vários: habitar num território em luta, que nos permite estar próximos de pessoas que se opõem ao projecto desde há 40 anos, poder vigiar e agir directamente contra o avanço dos trabalhos, aproveitar os espaços deixados ao abandono para aprender a viver em conjunto, cultivar a terra, e ser mais autónomos em relação ao sistema capitalista.”
É a forma mais directa de dizer não às maquinas que avançam e à lógica capitalista do crescimento económico que as empurra. Ao longo dos anos, a maior parte das terras foram sendo compradas aos habitantes pelo estado e deixadas ao abandono. Agora, há cada vez mais ocupantes, espalhadas por cerca de quinze espaços. Há casas antigas recuperadas, pequenas horas, terrenos de cultivo colectivos, caravanas, yurts e várias casas nas árvores, para dificultar o despejo pela polícia.
Um dos mais recentes ocupantes é filho de portugueses. É um dos activistas da rede “Reclaim the fields” e vive num terreno de um hectare, onde cultivam a própria comida. “Temos uma boa relação com os camponeses vizinhos. Eles dão-nos coisas, nós damos-lhes outras”, explica. Em relação ao acampamento internacional, diz, alguns ocupantes temem que afecte as relações que construíram com os vizinhos. “Por outro lado há o despoletar de mais repressão policial – ainda que ninguém tenha vindo para a ZAD sem esperar repressão.”
As acções directas para proteger o espaço e divulgar a luta contra o aeroporto são regulares. Um exemplo são as ocupações de portagens nas auto-estradas da Vinci: as cancelas são abertas e, em vez do preço da auto-estrada, os condutores são convidados a deixar uma contribuição livre para a resistência. “Aquilo quer a Vinci perde, ganha a luta!”
No acampamento internacional, dezenas de bicicletas velhas, recuperadas nos arredores da cidade, são reparadas. Trinta pessoas partem para uma “velorution” (bicicletada), para circular pela cidade a distribuir informação, e ocupam temporariamente uma via da autoestrada. Acção que termina com a intervenção de uma centena de polícias de choque.
A polícia está por todo o lado. À entrada e saída de Notre-Dame des Landes, toda a gente é fotografada. A repressão tornou-se mais forte nos últimos meses, com mais polícias a entrar nos terrenos ocupados e com mais ordens de despejo, por vezes culminando na detenção de ocupantes. Neste momento, há mais de dez processos em curso no tribunal, por insulto, rebelião ou recusa de extracção de ADN.
Entretanto, a resistência espalhou-se e, por toda a europa, a Vinci tornou-se um alvo: em solidariedade com a luta na ZAD, têm sido destruídos equipamentos de estaleiros de construção ou máquinas de bilhetes de parques de estacionamento. A luta na ZAD ganhou dimensão internacional e já se tornou símbolo da resistência ao capitalismo e à obsessão pelo crescimento económico.
“O capitalismo está em todo o lado, nós também”
Nos últimos anos, as acções contra grandes cimeiras não só têm falhado na tentativa de perturbar ou impedir os encontros, como, caricaturadas pelos media, se tornaram mesmo parte do espectáculo montado pelos poderosos. Também os acampamentos No Boarder ou Climate Action são para muitos momentos de encontro desperdiçados, por serem tão curtos e específicos.
“Desde há algum tempo emerge a vontade de sair dos esquemas das lutas clássicas. Precisamos de utilizar momentos e lugares diferentes daqueles decididos pelos governos nas cimeiras internacionais”, dizia o colectivo NoG2011. Foi daí que surgiu a ideia de fazer este acampamento mais longo em Notre-Dame des Landes, como um espaço concreto de recusa do capitalismo.
“A diferença para os acampamentos climate action, é que é uma experiência de vida em conjunto, de um modo de vida alternativo”, explica Lorenzo. “Vir aqui dá-me energia, novas informações e novos contactos.”
Há também o Daniel, que é de Barcelona, onde passou um mês na acampada na Praça da Catalunha, e veio partilhar experiências sobre o movimento dos indignados. Há a Chantalle e o Skippy, sentados no chão a desenhar, ambos para lá dos 50 anos. “Estou muito feliz por ter encontrado pessoas que não abordaria fora daqui”, diz Chantalle. “Vim para estar com a minha filha, solidarizar-me com a luta contra o aeroporto e compreender o que é a auto-gestão”
Há quatro comissões a funcionar: media, logística, acção e vida da aldeia. A comida é respigada ou comprada a agricultores locais. Vai-se procurar na natureza aquilo que se pode utilizar, desde madeira a amoras. As casas de banho são secas e os desperdícios orgânicos são transformados em composto para as hortas. Todos os dias há debates, workshops, filmes, sessões de poesia: basta alguém propor para que aconteça.
Skippy está no acampamento desde os dias de preparação. Dos campos anteriores, viu que uma semana era frustrante: “tudo repousa sobre a energia daqueles que preparam o campo.” “Gosto desta diversidade. Uma avó e um anarquista com um cão aqui falam-se! Há pessoas que levam vidas alternativas, há assalariados, há ocupantes da ZAD...” Aqui aprende-se, experimenta-se, descobre-se. Não há regras estabelecidas, elas redefinem-se a cada momento. “As pessoas estarem juntas num campo é uma forma de convergência extraordinária. Não temos só reuniões, também trocamos carinhos, massagens... É super forte para a luta.”
Para ele, é fundamental deixarem estruturas para que as pessoas possam sempre voltar quando for preciso baterem-se contra o aeroporto. “Todos os que aqui passaram vão sentir-se envolvidos a cada acontecimento. É algo muito forte.”
Para eles, é lá onde o capitalismo ataca com mais força - sejam centros de detenção para imigrantes, centros comerciais ou grandes projectos como os aeroportos - que mais urge combatê-lo. Um combate que, no entanto, só faz sentido se enquadrado em formas de vida alternativa, livres de opressão – se experimentarmos já hoje o mundo que queremos amanhã.
francisco
Mais informação (em francês):
http://zad.nadir.org/
http://lutteaeroportnddl.wordpress.com/
http://nantes.indymedia.org/
http://gzero.info/
Comentários
Re: ZAD: contra o aeroporto, ocupar e resistir
Great post "ZAD: contra o aeroporto, ocupar e resistir" Thanks for sharing.
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