Bankia, o símbolo da recuperação espanhola, revelou-se um fracasso para os aforradores - O colapso da estrela do Reino e as douradas comissões por restituir - Ganhos recorde para os especuladores
O banco espanhol Bankia, criado ad hoc por fusão das Cajas de Ahorro (Epa), talvez agora pudesse restituir o dinheiro. Poderia deduzi-lo, gota no oceano, às centenas de milhares de milhões de euros dos contribuintes europeus que servirão para evitar a falência em cadeia dos bancos espanhóis.
Esta é a história de uma das operações em Bolsa mais bizarras de todos os tempos e de como alguns grandes bancos europeus e de Wall Street, do Deutsche Bank ao JP Morgan, passando pelos Unicredit e Mediobanca, dela retiraram um nutrido benefício. No total 145,9 milhões de euros directamente, a que se somam 2,2 mil milhões de euros em perdas para famílias, desempregados e trabalhadores, de algum modo sobreviventes da crise e todos aforradores apenas culpados de ter tido uma conta no Bankia no momento errado.
O momento errado foi 20 de Julho do ano passado, quando se estreou na Bolsa de Madrid, como um novo grupo bancário e pelo qual muitos especialistas poriam as mãos no fogo, completamente curado e forte, aquele cujo nome, novinho em folha, é Bankia. Resultava da fusão de várias instituições de poupança ligadas ao crédito imobiliário (entre elas Caja Madrid e as de Canárias, Ávila e Segóvia), reunindo muitas fraquezas na ilusão de as transformar em força. O presidente do grupo ao tempo é Rodrigo Rato, antes Ministro das Finanças (PP) e Director do FMI. Administrador Delegado é Francisco Verdú Pons, o 'banqueiro poeta' cuja última colecção de poemas é 'Alçar la Mirada' (Elevar o Olhar).
Verdú e Rato elevam o olhar para a Bolsa, na intenção de vender até cerca de 5 mil milhões de euros de participações minoritárias. Para todo o establishment hispânico, desde o, ao tempo, PM José Luis Zapatero até ao Governador Miguel Angel Ordoñez, o prestígio do Bankia torna-se um símbolo para mostrar ao mundo que o Reino é capaz de fazer face e ultrapassar o problema bancário com as ferramentas do mercado. Tanto pior se ninguém confia no mercado internacional. Quando as instituições encarregadas de obter suporte financeiro procuram fortes investidores em Londres e Frankfurt só encontram portas fechadas. Não que a equipa de falcões seja pequena ou secundária. As instituições que garantiam a toma firme de acções, chamadas 'coordenadores globais', são a elite da Finança: eis o Bank of America – Merrill Lynch, Deutsche Bank, JP Morgan, UBS, Barclays, BNP Paribas, o consultor Lazard e, entre os bancos responsáveis por reunir encomendas de potenciais investidores, com um papel importante mesmo que de segunda categoria e menos rentáveis, encontram-se os italianos Unicredit e Mediobanca (bancos italianos, nt).
Quando aquele pelotão de agentes se apresenta a Rato de mãos vazias começa a 2a fase da operação: a caça desesperada a pequenos investidores espanhóis. Ordena-se a cada gerente de agência do Bankia que encontre um grande número de subscritores entre os seus clientes, os membros das suas famílias, namoradas e amigos; há casos de funcionários que subscrevem a sua própria agência para atingir a quantia requerida. Anúncios em televisões e rádios repetem-se insistentemente àcerca da colocação em Bolsa do inafundável Bankia. Mas nem os bancos nem os agentes envolvidos explicam que os créditos que suportam a operação estão avaliados pelo seu valor imobiliário estimado anteriormente (não considerando a desvalorização já verificada) e que algumas operações são apresentadas como créditos a iniciativas de negócio de modo a fazê-los parecer menos suspeitos.
Desta forma, no Verão de 2011 o Bankia recolhe de pequenos aforradores 3.09 mil milhões de euros (dos quais apenas 4% do estrageiro); no último instante os emissores do banco cortam o valor inicial dos títulos de 4.5 a 5 euros para 3.75, pois a descofiança alastra; 11 meses depois a cotação do Bankia já colapsou 72% e agora necessita de um resgate de 19 mil milhões da Europa. É um banco que foi criado falido. Mas isto não impede que a elite da finança internacional receba 145.9 milhões de euros em comissões por ter assegurado a venda de acções à classe média espanhola. Rato e o banqueiro-poeta arrecadam cada um o seu milhão. Agora, se todos os bancos e banqueiros restituissem os fundos resgatados, a decência viria à superfície (pelo menos isso) e seria um pouco menos ausente.
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Federico Fubini
@ Federicofubini Junho 12, 2012 | 10:33 DIREITOS RESERVADOS ©
Publicado por Corriere de la Sera, 12 de Junho de 2012.
Tradução do original: H. Merino.