Ao sobrevalorizar horizontalismo e consulta permanente às bases, movimento teria renunciado a formular propostas concretas, derrapando para elitismo e impotência
Por Thomas Frank, no Le Monde Diplomatique
Uma cena vem à minha memória cada vez que tento recuperar o efeito excitante que o movimento Ocupar Wall Street (OWS) produziu em mim quando a manifestação ainda parecia ter um grande futuro. Estava no metrô de Washington,lendo um artigo sobre os manifestantes reunidos no Zuccotti Park de Manhattan. Fazia três anos que Wall Street havia se recuperado; dois anos que meu círculo de colegas e amigos havia abandonado a esperança de ver o presidente Barack Obama provar sua audácia; dois meses que os amigos republicanos dos banqueiros haviam conduzido o país à beira da moratória ao empreender um braço de ferro orçamentário com a Casa Branca. Como todos, já não aguentava mais.
Ao meu lado, estava um cidadão impecavelmente vestido, talvez um quadro superior que acabara de sair de algum salão comercial, a julgar pela bolsa a tiracolo com slogans que se referiam ao dinheiro. As frases indicavam como otimizar os investimentos financeiros, sugeriam que o luxo é um benefício e que ser um ganhador é magnífico. O homem parecia realmente incomodado. Eu saboreava a situação: em outros tempos, eu é que teria vergonha de exibir a capa do meu jornal em um vagão lotado; hoje, são pessoas como ele que tentam passar despercebidas.
Alguns dias depois, assistia a um vídeo na internet que mostrava um grupo de militantes do OWS debatendo em uma livraria. Em um momento do filme, um participante se perguntou sobre a obsessão de seus camaradas em insistir que se expressam “por si mesmos”, em vez de assumir que pertencem a um coletivo. Outro, então, replicou: “Cada um pode falar apenas por si mesmo; ao mesmo tempo, o ‘si mesmo’ poderia muito bem se diluir em seu próprio questionamento, como convida todo pensamento pós-estruturalista que leva ao anarquismo [...]. Não posso falar apenas por mim: é o ‘apenas’ que conta nesse caso, e certamente é aí que muitos espaços se abrem”.
Ao escutar essa parafernália pseudointelectual, entendi que já não havia esperança. O filósofo Slavoj Žižek já havia prevenido os acampados do Zuccotti Park em outubro de 2011: “Não se apaixonem por vocês mesmos. Passamos um bom momento aqui, mas, lembrem-se, os carnavais não custam caro. O que conta é o dia seguinte, quando precisamos retomar nossa vida normal. E é quando nos perguntamos: alguma coisa mudou?”.
A advertência de Žižek está na obra Occupy! Scenes from occupied America[Ocupe! Cenas da América ocupada], o primeiro livro consagrado ao protesto publicado em 2011. Desde então, uma avalanche de produções editoriais invadiram as prateleiras das livrarias, de discursos pronunciados por manifestantes a análises jornalísticas, passando por testemunhos de militantes.1
Quase todas essas obras caem no contexto evocado por Žižek. Seus autores estão profunda e desesperadamente apaixonados pelo OWS, e dão por certo que os manifestantes anti-Wall Street abalaram os poderosos do mundo financeiro e sufocaram de admiração os excluídos do planeta. Essa visão beata em geral já aparece no próprio título do livro: This changes everything: Occupy Wall Street and the 99% Movement [Isto muda tudo: Ocupar Wall Street e o Movimento dos 99%],2 por exemplo. Os superlativos abundam, usados sem censura ou precaução. “Os 99% despertaram, a paisagem política norte-americana jamais será a mesma”, anuncia o autor de Voices from the 99 percent[Vozes dos 99%].3 Uma profecia quase morna se comparada ao entusiasmo peremptório de Chris Hedges. Em Jours de destruction, jours de révolte [Dias de destruição, dias de revolta], o antigo jornalista do New York Times compara o OWS às revoluções de 1989 na Alemanha do Leste, Tchecoslováquia e Romênia. Os manifestantes nova-iorquinos, escreve, “eram desorganizados no início, não sabiam exatamente o que fazer, não estavam sequer convencidos de que tinham cumprido algum papel de mérito. Com ares inofensivos, porém, desencadearam um movimento de resistência global que eclodiu em vários países e nas capitais europeias. O status quo precário imposto pelas elites durante décadas foi implodido. Outro relato ganhou forma, a revolução começou”.4
O que torna esses livros tão tediosos é o fato de, salvo algumas exceções, recontarem as mesmas anedotas, citarem os mesmos comunicados e discursos, oferecerem as mesmas interpretações históricas, se concentrarem nas mesmas coisas. Como o tocador de djembê impediu que todos dormissem, o que realmente aconteceu na ponte do Brooklyn, por que e como fulano foi parar ali, quem teve a ideia de realizar assembleias gerais, como cada um limpou o parque durante uma noite de pânico para evitar que fossem expulsos no dia seguinte etc. Medido pelo número de palavras por metro quadrado de grama ocupada, o Zuccotti Park constitui, sem sombra de dúvida, o lugar mais analisado da história do jornalismo.
A grande epopeia, contudo, teve curta duração. Os acampados foram evacuados dois meses após a instalação. À exceção de alguns grupos residuais aqui e ali, animados por militantes mais experientes, o movimento OWS se desagregou. A tempestade midiática que recaiu sobre as lonas do Zuccotti Park foi levada pelo vento. Façamos uma pausa e comparemos o balanço do OWS com o de seu vilão gêmeo, o Tea Party, e da renovação da direita ultrarreacionária, do qual esse partido é ponta de lança.5 Graças aos seus devotos, o Partido Republicano se tornou majoritário na Câmara dos Representantes; nos legislativos estaduais, tirou seiscentas cadeiras dos democratas. O Tea Party conseguiu até impulsar um dos seus, Paul Ryan, à candidatura para a vice-presidência dos Estados Unidos.
A questão à qual os enaltecedores do OWS consagram suas considerações apaixonadas é a seguinte: qual é a fórmula mágica que permitiu ao movimento ter tanto sucesso? Ora, essa é a questão diametralmente inversa à que deveriam se perguntar: por que tamanho fracasso? Como os esforços mais legítimos caíram no lamaçal da glosa acadêmica e das posturas anti-hierárquicas vazias de sentido?
De qualquer forma o movimento começou forte. Desde os primeiros dias de ocupação do Zuccotti Park, a causa do OWS tornou-se incrivelmente popular. De fato, como sublinha Todd Gitlin, era a primeira vez desde a década de 1930 que um tema progressista como a aversão a Wall Street unia a sociedade norte-americana. As moções de simpatia pelo movimento choviam aos milhares, os cheques de apoio também, além das pessoas que faziam fila para doar livros e comida aos acampados. Celebridades foram demonstrar solidariedade à causa e os meios de comunicação começaram a cobrir a ocupação com uma atenção que jamais é dedicada aos movimentos sociais etiquetados de esquerda.
Mas os analistas interpretaram de forma equivocada o apoio à causa do OWS como um apoio às suas modalidades de ação. As barracas armadas no parque, a preparação de comida por legiões de acampados, a busca sem fim do consenso, os enfrentamentos com a polícia etc.: aí está, aos olhos dos exegetas, o que fazia a força e a singularidade do OWS; aí está o que o público tem sede de ver.
O que estava sendo realmente tecido em Wall Street durante esse tempo todo suscitou um interesse muito menos vivo. Em Occupying Wall Street, uma compilação de textos redigidos por escritores que participaram do movimento, a questão dos empréstimos bancários usurários apareceu somente uma vez, em uma citação na boca de um policial. E não espere descobrir como os militantes do Zuccotti pretendiam enfrentar o poder dos bancos. Não porque tal façanha pudesse ser considerada impossível, e sim porque a forma como a campanha do OWS é apresentada nessas obras dá a impressão de que o movimento não tinha nada a propor além da construção de “comunidades” no espaço público e o exemplo dado ao gênero humano pela nobre recusa de eleger porta-vozes.
Infelizmente, um programa político como esse não é suficiente. Construir uma cultura de luta democrática é, sem dúvida, muito útil para os ambientes militantes, mas é apenas um ponto de partida. O OWS jamais foi além disso: não desencadeou uma greve, não bloqueou um centro de recrutamento ou sequer ocupou o gabinete de um reitor de universidade. Para seus militantes, a cultura horizontal representa o estágio supremo da luta: “O processo é a mensagem”, entoavam em coro os manifestantes.
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http://ponto.outraspalavras.net/2013/01/24/polemica-o-occupy-wall-street...