Uma mensagem da Eslovénia para o mundo

Uma mensagem da Eslovénia para o mundo: Assumimos a responsabilidade de uns pelos outros

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Sabemos exactamente aquilo que não queremos. Falemos uns com os outros aquilo que queremos; aquilo que aspiramos enquanto indivíduos, aquilo que aspiramos enquanto comunidade. Precisamos de abrir todas as possibilidades, todos os canais, todas as formas para falar do sofrimento, opressão, violência, assim como das esperanças e visões. Precisamos de nos escutar uns aos outros e saber que somos capazes de dar os passos e entrar no caminho para a construção de uma verdadeira sociedade democrática, na qual até a mais pequena voz é ouvida, e o sofrimento de alguém é o sofrimento de todos.

A violência, a injustiça, a intimidação e a arrogância não se podem refugiar mais no nosso país. Os roubos e saques económico têm de ser punidos, e tem de se pôr termo à injustificável opressão sobre o povo. Temos de pôr os conceitos de igualdade, reciprocidade, equidade e dignidade em prática. Apenas pela acção e pela actividade poderemos encontrar o caminho para onde queremos ir e como lá chegar. As estratégias e visões de desenvolvimento não podem ser concebidas ou delegadas por uma minoria; todos temos de fazer um esforço para decidir sobre o nosso futuro colectivo.

Nós insurgi-mo-nos! Conquistamos o medo. Em exactamente duas semanas, a Eslovénia passou por um total de 54 insurgências em 28 cidades: Maribor, Liubliana, Ptuj, Gornja Radgona, Jesenice, Kranj, Bled, Koper, Nova Gorica, Novo Mesto, Velenje, Ajdovščina, Trbovlje, Celje, Dravograd, Ravne na Koroškem, Krško, Brežice, Izola, Murska Sobota, Bohinjska Bistrica, Lendava, Trebnje, Slovenske Konjice, Litija, Kočevje, Radenci. Cerca de 77.500 pessoas saíram para as ruas, segundo dados de toda a Eslovénia, mas claro, os media, a polícia e os políticos contabilizaram-nos em alguns milhares a menos. Eles trivializam a nossa luta e continuarão a fazê-lo. Eles não podem esconder os nossos números, pois as ruas pertencem aos que se interessam pelo país e aos que querem mudar aquilo que nos foi forçado nestes últimos 20 anos. Para que não se perca o futuro, temos de retomar a liberdade e o poder dos nossos votos.

As forças repressivas da autoridade detiveram 254 pessoas na Eslovénia, algumas delas ainda estão sobre custódia. Jovens estão presos porque o Ministro do Interior Gorenak diz que eles voltarão aos protestos. Milhares voltam na mesma, porque nós não estamos todos na prisão. Nós somos as mães dos filhos detidos, nós somos todos os amigos, famílias e apoiantes que irão voltar para as ruas e participar na insurgência até que tenhamos alcançado a mudança. Enquanto houver filhos confinados, ninguém é livre! Os jovens não podem ser criminalizados pelas mesmas pessoas que roubaram os prospectos do seu futuro, por aqueles que violentamente sufocam os protestos que são o único meio disponível para as pessoas expressarem a sua vontade colectiva. A interminável violência do capitalismo avança sem controlo enquanto os ataques dos governantes e marechais continuam impunes, sem responsabilização ou imputação. O que eles chamam de motins surgiram do estado de medo e pobreza, para onde nós, os cidadãos fomos empurrados. Exigimos lágrimas de felicidade, não gás lacrimogéneo!

Temos a responsabilidade de julgar e condenar estes poderes corruptos pela destruição intencional que ainda sofremos ao nos levantarmos e ver-mo-nos sozinhos e ignorados enquanto eles nos tentam calar. A Eslovénia ergueu-se com tamanha veemência, e agora, enquanto que desfrutamos de um raro momento de liberdade, que nos tem sido negado por tanto tempo, nós não nos iremos calar. Temos de nos interligar, comunicar, organizar, apelar e ir em frente – em direcção a uma solução. Temos de definir objectivos, procurar o consenso, estabelecer estratégias, e criar uma visão em conjunto. Não nos podemos calar e não podemos desistir. Agora é o momento, temos de o agarrar! Temos de nos libertar dos tentáculos da corrupção que vai desde Maribor até Ljubljana, em ziguezague por toda a Eslovénia estendendo-se até à Europa. Janez Janša, o Primeiro-Ministro esloveno, tem a específica responsabilidade de escutar o que foi dito em Maribor, Ljubljana e outras insurgências. As autoridades que não quiseram saber de nada ao roubarem todas as flores do jardim têm de ouvir agora que as suas raízes estão a ser arrancadas. Janez Janša, estás acabado.

Estamos unidos contra o nepotismo, a corrupção, a impunidade dos responsáveis pelo roubo, pela destruição dos nossos futuros para lucro de alguns, acumulando-o à custa dos mais empobrecidos e necessitados, contra a manipulação política, gozando com o estado, com as vidas, com as pessoas. Já levamos 20 anos de gritos afogados nos nossos pulmões. Levantamos a cabeça para substituir a humilhação e a opressão e pedimos formas comuns, diferentes e alternativas na criação das nossas comunidades. Apenas nós, e ninguém mais o pode fazer. Isto não é apenas uma resistência, isto é uma luta de classes. Erguemos as nossas mãos, os nossos punhos em união. Punhos de libertação!

Não pagamos a vossa crise! Temos um caminho longo e árduo a percorrer se queremos continuar a alcançar aquilo que conquistamos nestas últimas semanas e a alimentar esta prodigiosa insurgência. O grito ensurdecedor “ELES ESTÃO ACABADOS!” tem de ecoar até no momento dos mais exaltados festejos que surgirão aquando a destituição de todos aqueles que negaram a vontade do povo, que o manipularam por interesse próprio, aqueles que levaram este país à beira do colapso. Agora temos pela frente a tarefa de encontrar soluções. A Eslovénia irá ser sufocada se apenas delegarmos novas caras para nos representar e gerir as nossas vidas. Temos de perseverar para assegurarmos que damos um definitivo passo em frente, se não o fizermos para nós próprios, para os que nos seguem. O fracasso é deixarmos para o futuro aquilo que herdamos do passado. Procuremos novos sistemas, novos mecanismos.Eles destruíram o nosso país, nós construiremos um melhor com princípios e engenho colectivo nas suas fundações. Enquanto nos reunimos, várias iniciativas nacionalistas e líderes de partidos emergentes estão a farejar oportunidades para, da angústia dos que foram humilhados e empobrecidos, privatizar e monopolizar. Temos a noção de que cada insurgência cria a possibilidade para que uma consolidação negativa de forças tente tomar o controlo; devemos permanecer vigilantes contra estas pessoas que se sentam no fundo e esperam para se apropriarem dos nossos esforços. Jankovic não é uma alternativa para a Eslovénia, nem nenhuma das outras caras gastas dos partidos estabelecidos da semi-esquerda. Fomos decepcionados e roubados por eles tantas vezes como por aqueles que agora formam uma coligação. O nosso parlamento foi preenchido por aqueles que querem delegar: uns não têm educação, outros têm falsas licenciaturas ou diplomas, outros têm apenas um saco vazio que gostariam de encher aos milhões. Tem sido enchido por aqueles que querem subjugar os outros. Mas não os podemos deixar! Agora não é o momento para partidos, ou para novos líderes, novas caras.

Isto foi uma mensagem clara das insurgências. Agora é o momento para destituir o governo. Agora é a nossa vez.

Temos de nos organizar em redes formais e informais. Temos de começar nas nossas ruas e comunidades, organizar-nos onde nos sentimos em casa e onde somos mais explorados. Nas nossas ruas, prédios, praças, bairros, nos nossos locais de trabalho, e bares se necessário. Temos de carregar a insurgência nas nossas mãos como uma pedra preciosa. Não a podemos entregar a ninguém até que estejamos prontos para encontrar-mos entre nós as pessoas que não nos decepcionem. Pessoas em quem possamos confiar e orgulhar. Pessoas que serão capazes de colaborar em conjunto para criar connosco as nossas cidades, o nosso país, o mundo.

Temos de formar assembleias populares ao nível das comunidades, compostas pelos cidadãos em vez do governo, para dar voz à sociedade civil. Temos de envolver as instituições públicas, a universidade, instituições culturais e sociais, a educação e o sistema de saúde. Eles estão do nosso lado, e temos de encontrar uma forma de os acordar para que participem na luta para um futuro melhor. Estas instituições têm de assumir um papel-chave no desenvolvimento de hoje. Eles deveriam ser os primeiros a levantar a sua voz e não se silenciar como fizeram à 20 anos atrás. Todos temos lutado pela nossa existência, contudo divididos em categorias separadas de trabalhadores, professores universitários e pensionistas. Temos de acabar com isso! Olhemos para além do nosso próprio quintal e comecemos por criar comunidades juntos. Onde estão os sindicatos? Onde estão os movimentos da sociedade civil? Temos de ir além e ligar-nos aos trabalhadores, aos desempregados, aos reformados, aos agricultores. Todos temos de acordar! Temos de quebrar as barreiras que nos estão à frente. Iremos em frente mesmo que tenhamos de arriscar os nossos salários, os nossos empregos, até violentos ataques vindos desses grupos privilegiados que estão a tentar manter o controlo apesar do fardo que pesa sobre todos nós. Já estamos a arriscar tudo; não temos nada a perder. Eles já destruíram quase todas as nossas empresas, o nosso ambiente, os nossos serviços sociais; os nossos jovens foram forçados a ir para fora para conseguir sobreviver. Juntos iremos fazer da Eslovénia a casa onde eles poderão regressar; regressarão com opções e uma vida em dignidade.

Temos de passar da realidade digital organizada para Assembleias reais, comités devem começar a lançar propostas concretas para lidar com assuntos de interesse comum para cada comunidade. É preciso que concretizemos a tarefa mais difícil – chegar a acordos por consenso, a intersecção onde as necessidades e os interesses convergem. Temos de começar no ponto onde as necessidades comuns convergem e construir a partir daí. Há exemplos de lutas e de conquistas à nossa volta. A Islândia é um exemplo de sucesso. O Egipto mostra-nos que as insurgências podem levar a um sistema ainda mais fechado, com maior delegação e ditadoria. Temos de ter cuidado com as armadilhas em que a Grécia caiu, em que uma década de greves gerais, ocupações de universidades, e iniciativas globais pela justiça falharam e a população encontra-se neste momento bipartida entre os partidos da esquerda e direita, que continuam a funcionar como mecanismos de opressão. Temos de deixar de depender dos media, que roubaram a verdade, aprisionaram-na, e bombardeia-nos com uma enchente de tópicos sensacionalistas que são, quanto muito, entretimento de baixa qualidade. Temos de assumir a responsabilidade por nós-próprios e de uns pelos outros, transmitir a verdade e as notícias através dos nossos próprios canais.

Há vários grupos que já estão a trabalhar na elaboração de métodos operativos, estratégicos e organizativos, e à procura de novas abordagens para chegar ao consenso. Muitos ainda não encontraram os meios ou a oportunidade para se fazerem ouvir; temos de começar nas ruas e procurar soluções. O público em geral abriu um diálogo, e nós temos de garantir que todas as vozes são ouvidas, os mais velhos, os pobres, os desesperados, os isolados. Nós não queremos panfletos, queremos transparência! Mas até que a transparência seja alcançada nós levaremos panfletos!

As insurgências não podem acontecer apenas à noite, têm de brotar em plena luz do dia. Aquilo que vimos até aqui é a apenas um ensaio para o 21 de Dezembro, quando as pessoas de todo o país irão juntas levantando as suas vozes como uma só. As nossas armas são a arte, a criatividade, e comunicação boca-a-boca. Sabemos que uma vez mais iremos enfrentar os mesmos mecanismos de opressão, que nos força a radicalizar-nos, mas não a recuar. O governo foi claro que acima de tudo, eles tentam abafar os gritos “ELES ESTÃO ACABADOS!” que entoam ao longo das suas ruas. Nós não ficaremos calados. O velho está acabado, a máfia está acabada. Estamos a recomeçar de novo. Vamos construir um país novo. O governo tem de se demitir, o parlamento tem de se demitir. Eles serão imputados pelas consequências das acções feitas contra o seu próprio povo, pelo desaparecimento de documentos que até neste mesmo momento estão a ser postos em cinza. Não há ponto de retorno. Escolhemos a vida, escolhemos a coragem!

Estamos apenas a começar a nossa insurgência, e só se intensifica e cresce à medida que nós construímos uma alternativa à corrupção e ao desespero económico oferecido pelos oficiais da Eslovénia.

Rejeitamos os vossos métodos: nós não intimidamos, humilhamos ou usamos a violência, nós iremos negar-lhes a repressão que eles nos tentam impor. Somos diferente, pessoas normais, a multidão nas ruas. Se a sua única forma de comunicação é a violência e a opressão, nós iremos responder-lhes tocando música e dançando em libertação. Se utilizarem o exército, não nos roubarão a voz. Nós não destruímos, nós colaboramos e criamos. Nós queremos uma sociedade de prosperidade, confiança, justiça, igualdade. Iremos alcançá-lo. Os seus canhões de água e gás pimenta são inúteis. Eles vão ter de abrir os olhos e os ouvidos às mensagens de todas e de cada insurgência. Iremos mostrar-lhes aquilo que conseguimos alcançar sem eles.

Juntos sabemos, um outro mundo é possível...

Eles estão acabados! (GOTOVI SO)

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