Uzbequistão: Retratos da morte do Mar de Aral
Marina Koslova *
IPS/Envolverde
http://infoalternativa.org/ecologia/ecologia034.htm «Não poderemos salvar o Aral e em pouco tempo só o veremos em fotografias», lamenta o pintor uzbeque Rafael Matevosyan, cuja obra há mais de 40 anos testemunha o desaparecimento deste mar na Ásia central. O Aral é um mar interior localizado entre o Cazaquistão e o Uzbequistão que vem secando há 50 anos. Matevosyan, de 82 anos, chegou à região em 1962, e desde então dedicou dezenas de quadros ao mar. Naqueles anos, o Aral era o quarto maior dos mares internos, depois do Cáspio, entre a Europa e a Ásia, o lago Superior, na América do Norte, e o lago Victoria, na África.
O Aral começou a secar na década de 60 por causa da actividade humana. Eram extraídas grandes quantidades de água para irrigação das plantações de algodão que abasteciam a gigantesca produção industrial da então União Soviética, da qual o Uzbequistão fazia parte. Hoje, o seu volume de água diminuiu 90%, para 115 milhões de metros cúbicos, e a sua superfície caiu 73%, para 17.600 quilómetros quadrados. De facto, acabou dividindo-se em dois grandes lagos chamados Aral Sul e Aral Norte. Milhares de hectares do que era mar agora formam o novo deserto de Aralkum. Diariamente, o vento lança cerca de 75 milhões de toneladas de pó, areia e sal a partir do deserto, que vão sendo depositadas na terra num raio de mil quilómetros.
«Os quadros de Matevosyan são a crónica da tragédia do Aral», disse o poeta e jornalista uzbeque Raim Farhadi. Nos seus primeiros quadros, o artista pintava as águas profundas e as pescarias, nos mais recentes mostra barcos abandonados no que agora é terra firme. Apenas dois anos depois de chegar à região, Matevosyan notou que o mar encolhia. Um dos seus quadros representa uma indústria de pescado na cidade de Moynaq, na parte ocidental do Uzbequistão, que já foi um centro industrial de pesca e produtos enlatados. A fábrica ficava sobre estacas no mar. Mais tarde, descobriu essas estacas cravadas em terra firme e o estabelecimento abandonado.
Matevosyan nasceu na cidade uzbeque de Samarcanda, mas os seus pais mudaram-se para Baku, capital do Azerbaijão, na costa do mar Cáspio. Durante 30 anos viveu ali e pintou o Cáspio, bem com o mar Negro, um lago interno do sudeste da Europa e da Ásia menor ligado ao mediterrâneo pelo estreito de Bósforo e pelo mar de Mármara. O artista graduou-se no Colégio de Arte de Baku. Farhadi considera que Matevosyan é um cronista da tragédia do homem e do meio ambiente, sentindo os «corpos» da terra e da água. «Na medida em que o mar vai secando deixa um novo deserto que produz tempestades de areia e sal», disse o pintor numa entrevista. «A terra que está em redor do mar está coberta por sal e produtos químicos tóxicos que ficam na atmosfera e se espalham pelas zonas vizinhas», contou.
Estão a desaparecer as plantas e os animais, e o pescado agora é trazido do mar Báltico, a milhares de quilómetros de distância. «Quem vive ali sofre da falta de água e das doenças que isso acarreta», acrescentou. A população próxima do Aral apresenta altos índices de cancro e doenças pulmonares, entre outras. Matevosyan não é optimista. «Os rios Amu Darya e Syr Darya (que alimentam o Aral) percorrem o território de seis países da Ásia central (Afeganistão, Cazaquistão, Quirguistão, Tadjiquistão, Turcomenistão e Uzbequistão) e cada um extrai toda a água que pode. Se todos retirarem um balde de água de um barril, este ficará vazio», afirmou.
Até à década de 60, estes rios vertiam 58 mil milhões de metros cúbicos de água no Aral por ano. Mas em meados dos anos 80, pelo uso mais intenso da água para irrigação, esse caudal diminuiu drasticamente. Além disso, o mar perde por ano entre 30 mil milhões e 35 mil milhões de metros cúbicos de água devido à evaporação. O consumo anual de água recomendado na bacia do Aral não deve exceder 80 quilómetros cúbicos, mas na verdade são consumidos cerca de 102 quilómetros cúbicos por ano. «Os fundos e organizações que querem ajudar a deter o desastre do Aral não podem fazer muita coisa», disse Matevosyan. «Recebem muito dinheiro do Ocidente e utilizam-no. Mas ao mesmo tempo, essa conjuntura pode ser vantajosa para os ocidentais que querem estar presentes na região», acrescentou.
Matevosyan acredita que seus quadros ajudam a arrecadar fundos para as populações próximas do Aral. O artista realiza exposições nas repúblicas da extinta União Soviética e na Alemanha, Turquia, Estados Unidos e na ex-Jugoslávia. Também escreveu um livro sobre o seu trabalho intitulado O homem e o mar. Matevosyan é um homem idoso, magro, quase sempre com uma boina na cabeça. Está casado com uma mulher 23 anos mais nova, tem três filhas e um filho de dois casamentos diferentes, quatro netos e três bisnetos. Além dos mares, nos seus trabalhos aparecem pescadores, médicos, polícias e belas mulheres. As telas de Matevosyan reflectem o estado do dia; os contornos e cores dependem da luz. Prefere o realismo, por ser «mais perdurável».
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