Tchernobil: relatório britânico aponta entre 30 mil e 60 mil mortos - Estudo contradiz números da ONU

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Estudo contradiz números da ONU
Tchernobil: relatório britânico aponta entre 30 mil e 60 mil mortos
11.04.2006 - 17h42   AFP
 
Um estudo de cientistas britânicos divulgado hoje em Kiev estima que o número de
mortos por cancro devido à catástrofe nuclear de Tchernobil se cifra em entre 30 mil e 60
mil, ou seja, cerca de dez vezes superior aos números de um relatório da ONU.

O número de mortos devido ao cancro "nunca será conhecido na sua totalidade", mas
poderá ser entre 30 mil e 60 mil, salienta o estudo realizado pelos britânicos Ian Fairlie
e
David Sumner.

O relatório TORCH foi apresentado por uma deputada ecologista alemã do Parlamento
Europeu, Rebecca Harms.

Harms disse ter encomendado o estudo na sequência da publicação, em Setembro do ano
passado, de um relatório da ONU que estima em quatro mil as pessoas que,
"provavelmente, morreram de cancro" na Bielorrússia, na Ucrânia e na Rússia depois da
catástrofe.

Várias organizações não governamentais (ONG) já protestaram contra os números da ONU,
como a organização Médicos Para a Prevenção da Guerra Nuclear e a Greenpeace Rússia.

No dia 26 de Abril de 1986, o reactor nº 4 da central de Tchernobil, a 130 quilómetros de
Kiev, explodiu. O combustível nuclear ardeu durante dez dias, libertando para a atmosfera
milhões de radioelementos equivalentes no total a mais de 200 bombas como a que os
norte-americanos lançaram sobre Hiroshima, na II Guerra Mundial. 

Comentários

Efeitos de Chernobil

Se os relatórios minimalistas tivessem razão, só nos poderíamos alegrar pois
seriam menos as vítimas do acidente.

Infelizmente, é pouco provável que tenham razão. Sobretudo, haverá sempre
uma enorme margem de incerteza, pois é sempre possível dizer que não há
provas de que determinado cancro foi ou não provocado pela radioactividade
libertada no acidente. O número corrente da National Geographic edição
portuguesa traz um artigo, não minimalista, sobre Chernobil, mas, numa
fotografia de dois doentes com cancro de tiróide, ao arrepio de tudo o que é
dito no corpo do artigo e na própria legenda, diz a legenda às tantas sobe
um miúdo de 13 anos fotografado: "É improvável que o cancro de Dima se deva
à explosão." Não se sabe o que isto quer dizer, até talvez seja erro de
tradução, mas quererá dizer-se que é devido não à explosão mas à
radioactividade então libertada e aos seus efeitos POSTERIORES?

O papel da ONU, devido à relevância da AIEA, é ambíguo, pois a AIEA é uma
agência cujo objectivo é promover a energia nuclear. Mas uma instância
verdadeiramente independente onde a podemos encontrar? Resta a contraposição
de peritagens, as oficiais e as do movimento antinuclear, como o TORCH.

Em todo o caso, creio que não devemos centrar a atenção na batalha dos
números. Mesmo admitindo o cálculo minimalista de 4 mil mortos por cancro em
consequência do acidente, e dados os efeitos persistentes sobre o meio
ambiente próximo e longínquo e a impossibilidade de avaliar com exactidão as
consequências letais de tudo isso, é inegável que não há nenhum acidente
tecnológico ligado directamente a uma única instalação industrial que se lhe
possa comparar em gravidade e efeitos letais. Há uma diferença qualitativa
entre acidentes que implicam libertação maciça de radioactividade
incontrolada e qualquer outro tipo de acidente tecnológico conhecido. É
certo que também os pesticidas, o amianto e outros poluentes têm efeitos a
longo prazo e contaminam duradouramente o ambiente. O seu grau de dispersão
no entanto não lhes atribui uma incidência comparável. Acresce que, em todos
eles, o consenso é o de diminuir, limitar ou condicionar fortemente o seu
uso e substituí-los por alternativas, e alguns desses poluentes foram mesmo
já proibidos. O que contrasta fortemente com a "doutrina" da expansão do
nuclear defendida pelos seus promotores.

Cordialmente,


José Carlos Marques
jcdcm [at] sapo [dot] pt

Pedro Jorge Pereira GAIA - Grupo de Acção e Intervenção Ambiental