O GAIA solidariza-se e apoia a luta dos moradores de Villafranca de los Barros, unidos na Plataforma Ciudadana Refineria No contra a construção da Refineria Balboa na província de Badajoz. Em causa estão elevados impactes ambientais associados à construção de um oleoduto que atravessa algumas das mais importantes áreas protegidas da Península Ibérica; as emissões poluentes da refinaria, com os consequentes problemas para a saúde; a destruição do património agrícola e do emprego local; e as ameaças de contaminação das águas que atingem também o rio Guadiana. Tudo isto em nome da continuação de uma economia que continua a assentar insustentavelmente no petróleo.
Fica aqui um artigo da Plataforma Ciudadana Refinería No e o compromisso de continuarmos as lutas dos nossos companheiros extremeños.
No fim
do ano de 2004 foi anunciado o projecto de construção
da Refinaria Balboa na província de Badajoz, Extremadura,
Espanha. Um grupo de moradores de Villafranca de los Barros,
indignados pelas mentiras do governo regional (o governo regional
co-participa a refinaria em 20%) e do empresário promotor do
projecto sobre a inocuidade da refinaria e sobre o número de
postos de trabalho que ia criar (3000 lugares), assim como pela
ocultação da informação sobre as
consequências negativas sócio-económicas e para a
saúde pública e ambiental, decidiram juntar-se para
criar a “Plataforma Ciudadana Refinería No (PCRN)”.
Nós
consideramos que a refinaria é um projecto inadequado para a
industrialização da Extremadura no século XXI -
quando o resto da Europa dirige os esforços ao desenvolvimento
de energias sustentáveis - porque é uma industria
antiquada, poluente e não sustentável e porque a
Extremadura tem uma potencialidade extraordinária para o
aproveitamento da energia solar, eólica e de biomassa.
Imediatamente
milhares de pessoas, de Extremadura e de fora, juntaram-se à
PCRN. Começaram assim os trabalhos: reuniões, gestão,
procura de informação e contactos, criação
de grupos locais em representação da PCRN e comités
sectoriais de trabalho. Durante estes três anos de existência
da PCRN, temos estabelecido contactos com técnicos e
especialistas de outras organizações e instituições,
organizando palestras informativas, manifestações
contra a refinaria, e participando em debates com a empresa promotora
da refinaria e o governo da Extremadura. Mas isto só foi
possível no início da nossa actividade porque quando a
empresa e o governo regional se aperceberam que não podiam
deitar abaixo nenhuma das razões pelas quais a PCRN está
contra a refinaria, deixaram de querer conversar connosco e optaram
por silenciar a nossa actividade e a informação nos
meios de comunicação social regionais. Estes meios de
comunicação locais, distritais e regionais seguiram as
ordens de quem paga, o governo regional neste caso, e deram muito
maior cobertura informativa às manifestações
pró-refinaria de pessoas afins ao governo (desde catedráticos
da universidade sem muitos conhecimentos sobre o tema, até
delegados do governo regional movidos pelo interesse económico).
Estavam
tão certos de poder impor a sua visão que foi anunciado
o começo das obras da refinaria para início do ano de
2006. Não estavam a contar com a necessidade de apresentar um
estudo de impacte ambiental e de ter de conseguir uma declaração
positiva do impacte ambiental associado à refinaria. Em meados
de 2005 enviaram um relatório-resumo do projecto ao Ministério
Espanhol do Ambiente e ficaram surpreendidos pelo interesse mostrado
por milhares de cidadãos que realizaram alegações
contra o projecto. Todas estas alegações foram
recolhidas e enviadas à empresa como um conjunto de exigências
que deviam ser consideradas no projecto industrial definitivo,
acompanhado do Estudo de Impacte Ambiental correspondente.
Os
promotores da refinaria, a empresa e o governo regional, mostraram-se
desagradados pelas exigências ambientais, energéticas e
tecnológicas que o projecto devia cumprir. Começou
assim uma campanha nos meios de comunicação social de
queixas comparando o projecto com outros projectos de ampliação
de refinarias já existentes em Espanha (Huelva, Cartagena).
Não queriam perceber as diferenças intrínsecas
entre este projecto que vai ser instalado no interior do território
e a ampliação daquelas instalações na
costa mediterrânica ou atlântica. A partir desse momento
têm sido maiores as pressões e ataques contra todos os
que se opõem ao projecto da refinaria, também têm
redobrado os esforços e despesas para realizar os estudos que
no princípio nem sequer pensavam fazer. Recentemente temos
tido conhecimento dum estudo encomendado à Universidade de
Extremadura, pago pela empresa promotora da refinaria, que garante a
inocuidade do projecto. A apresentação pública
do estudo foi só dos resultados de experiências sobre o
efeito do ozono nas culturas. Após o nosso estudo desses
resultados, a nossa conclusão é que o ozono afecta o
crescimento das folhas. Este estudo foi realizado apenas durante um
ano e por isso não permite chegar a mais conclusões.
Mas a revisão bibliográfica do estudo diz que pode
haver outros danos no crescimento vegetativo, na produtividade e na
qualidade de frutos. Todos estes efeitos são devidos à
poluição industrial. Também há
referências aos efeitos negativos para a saúde humana.
Sabemos que têm sido apresentados, na “Dirección
General de Patrimonio de la Junta de Extremadura”, estudos sobre
descobertas arqueológicas nos locais afectados pela construção
da refinaria, também têm sido encomendados estudos
limnológicos do rio Guadajira (para onde iriam os efluentes da
refinaria) à Universidade de Sevilha, e que agora estão
pedir a concessão de águas da barragem de Alange para o
futuro projecto. Entretanto, tem começado a actividade para o
declarar como “Projecto de Interesse Regional”, para requalificar
os solos agrícolas da Sierra de San Jorge, no concelho de
Santos de Maimona, para solos industriais, etc.
Em
resumo, estão a trabalhar para limar as dificuldades passo a
passo mas sem esperar pela apresentação definitiva da
declaração positiva do estudo ambiental global do
projecto.
Esta
estratégia de factos consumados é considerada muito
útil pelo promotor do projecto e pela administração.
Mas na nossa opinião, o governo regional não vela pelo
cumprimento da lei nem pelo decurso correcto dos trâmites
administrativos. Os prazos podem ser reduzidos consideravelmente se
os passos que estabelece a lei não forem respeitados. Temos
que denunciar que estamos perante o empresário mais poluidor
de Extremadura e um dos mais poluidores de Espanha. As suas
indústrias siderúrgicas e de cimento estão
listadas no E.P.E.R. pela emissão excessiva de gases de efeito
estufa e pelos vertidos de hexaclorobenzeno. Funcionários da
empresa têm sido responsabilizados pela morte de trabalhadores
devido à ausência de medidas de segurança
apropriadas. Durante cinco anos – desde 1998 até 2003 –
houve derrames tóxicos na rede de esgotos de Jerez de los
Caballeros, e durante esse tempo o governo ficou calado e não
cumpriu a fiscalização. Perante esta situação
não podemos confiar nem nas declarações de
inocuidade da refinaria, nem na segurança da empresa, nem nas
promessas do governo regional sobre o cumprimento das leis ambientais
neste projecto. Há mais dados e pormenores sobre quem está
por trás deste projecto: empresas, políticos e privados
que não consideramos oportuno revelar se não nos for
solicitado.
Desde o
nosso ponto de vista, os aspectos negativos deste projecto ficam
expostos nos seguintes pontos:
-
Para
transportar o petróleo até à Extremadura é
preciso construir um oleoducto desde Huelva que vai atravessar
importantes zonas naturais como Doñana, os sapais dos ríos
Odiel e Tinto, as Serras de Aracena e os Picos de Aroche, inúmeras
ZEPA’s, IBA’s e LIC’s nas regiões de Andaluzia e
Extremadura.
-
Para
descarregar o petróleo (transportado por cerca de 80
petroleiros por ano), têm de instalar uma bóia
flutuante em frente a Palos de la Frontera (Huelva), atravessando
locais de interesse arqueológico submarino e terrestre. Há
portanto previsões de marés negras por derrames
acidentais ou da lavagem dos contentores de carga.
-
A
refinaria será instalada no centro de uma área
essencialmente agrícola, de videira e oliveira, com as
consequências negativas que isto terá para as terras de
cultivo e para a imagem de mercado dos produtos agrícolas
produzidos nesta área. A nossa previsão é que
isto vai destruir tanto emprego como aquele que se pretende criar
com a refinaria.
-
As
emissões de gases de efeito estufa (1,7.106 T) contribuem
para o aquecimento global e as mudanças do clima. As
quantidades que serão emitidas não cumprem o
compromisso de Kioto assinado por Espanha.
-
Em
Extremadura nao há nenhum local oficial de depósito de
resíduos tóxicos e perigosos.
-
A
saúde dos cidadãos dos arredores da refinaria será
afectada negativamente, exemplos conhecidos das doenças
associadas à presença de indústrias
petroquímicas são doenças de pele,
respiratórias, cardiovasculares, incremento das alergias e do
risco de cancro, etc.
-
As
emissões gasosas de óxidos de enxofre e azoto, assim
como de hidrocarbonetos gasosos, e os contaminantes secundários
produzidos, podem gerar chuva ácida e aumento do ozono
troposférico num raio de 70 km, portanto afectando também
Portugal.
-
Temos
a certeza que a instalação da refinaria pode afectar a
qualidade e quantidade de água do Guadiana que chega a
Portugal. Os derrames da refinaria no rio Guadajira vão
também para o rio Guadiana e, portanto, ficarão
retidos na barragem do Alqueva. A empresa promotora da refinaria
solicitou a concessão de 122l/s de água para a
refinaria (o que supoe 4 Hm3/ano) procedentes da barragem de Alange,
no rio Matachel, afluente do Guadiana. A barragem de Alange tem uma
capacidade de 852 Hm3, embora na actualidade só está
com 38,7% da sua capacidade máxima (330 Hm3). A água
desta barragem é usada para o abastecimento das povoações
(9 Hm3/ano) e para a rega de cultivos (80 Hm3/ano). Porém,
esta barragem serve também para garantir o caudal ecológico
do rio Guadiana. Se se aprovar a concessão de água
para a refinaria e os 4 projectos de centrais térmicas de
ciclo combinado associadas a esta, a barragem não teria
capacidade para garantir as actuais utilizações da
água. Portanto, não se poderia garantir o caudal
mínimo do rio Guadiana que está estabelecido nos
compromissos entre Espanha e Portugal. Também há que
salientar que na actual situação de mudanças
climáticas está prevista uma reduçao de 20-45%
da chuva na bacia hidrográfica do Guadiana, situação
que torna ainda mais improvável cumprir estes compromissos
com Portugal. Também há que salientar que a petição
da água por parte da refinaria também prevê a
ampliação das instalações e o aumento de
uso de água até 6 Hm3/ano.
Além
de tudo isto, os derrames líquidos das refinarias, mesmo após
o tratamento, levam muitas substâncias contaminantes (vestígios
de hidrocarbonetos de emulsão do petróleo com água,
DQO, DBO, sólidos em suspensão, fenóis,
amoníaco, compostos de enxofre, metais pesados como vanádio,
crómio, chumbo) e podem alterar o pH e outras propriedades
físico-químicas da água. Esta situação
torna-se ainda mais complicada porque se quer usar petróleo da
Venezuela, um dos de maior conteúdo em enxofre e metais
pesados. Tudo isto seria derramado no rio Guadajira, afluente do
Guadiana, em quantidades de 2 Hm3 /ano que iriam engrossar a poluiçao
já existente deste rio devida às águas de
centros urbanos e industrais, nomeadamente de Zafra, Almendralejo,
Don Benito, Villanueva de la Serena, Montijo, Mérida e
Badajoz. O resultado seria um rio de águas extremamente
poluídas que iriam drenar na barragem do Alqueva, cuja
situaçao actual de poluiçao é já
preocupante para os interesses ambientais e turísticos da
região.
Um
relatório do Greenpeace e do Gabinete da Confederación
Hidrográfica del Guadiana denunciavam que a poluição
do rio Guadiana é preocupante, mas não é
irreversível se forem tomadas as medidas adequadas. Mas, pode
ser compatível com os projectos de CTCC e Refinaria? Nós
pensamos que estas empresas só vão levar à morte
definitiva do rio.
Na
reunião do dia 24 de Novembro de 2006 entre os governos
Espanhol e Português, foi discutido o problema da refinaria.
Para projectos desta magnitude com implicações na
qualidade e quantidade das águas dos rios transfronteiriços
existe legislação, nomeadamente o convénio
Espoo, a Directiva Águas 2000/60/CE, artigo 12.1, e outras
acções internacionais que tem de ser cumpridas e
aplicadas.
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