O ambiente e a crise
Bernardino Guimarães
http://jn.sapo.pt/2006/10/03/porto/o_ambiente_crise.html Já cá se sabia - para muitos, a protecção do ambiente é um incómodo, um obstáculo à ultrapassagem da crise económica. Apesar das juras em contrário, é notória, infelizmente, a subalternização dos problemas ambientais face à necessidade de "desenvolver", de fomentar "investimento", de encontrar alavancas de "crescimento". Esse dilema é clássico, existe desde que as primeiras ideias de conservação da natureza surgiram, desde que apareceram contestações diversas ao modelo económico dominante - o adversário sempre foi aquele muro de certezas que significa "sim, isso do Ambiente é muito louvável, mas deixem-nos primeiro tratar das coisas importantes".
Perspectiva errada. O Ambiente não é algo de decorativo que ajude os macro-decisores a aliviar a consciência pesada. É uma questão de sobrevivência, de qualidade, de bom-senso.
Que hoje se sinta um retorno a uma concepção cavernícola do Ambiente, eis o que devemos lamentar- ao arrepio da consciência global que atravessa o Mundo e põe em questão os dogmas fragilizados de "desenvolvimentismo".
Esse menosprezo manifesta-se também nos órgãos de soberania e na administração - tão contagiosa é tal atitude que a assumem os próprios, cuja tarefa é (devia ser) defender a Ambiente. Temos assim um ministério do Ambiente que parece pedir desculpa por existir e outros ministérios para quem a existência do Ambiente parece não ser coisa provada.
Se os grandes empreendimentos fatalmente calham instalados em solos de reserva agrícola e ecológica se não se consegue cumprir o que é compromisso do país no tocante às emissões de gases de efeito de estufa; se o litoral recua sem que medidas de excepção sejam impostas enquanto é tempo; se o ordenamento do território patina ao sabor da voracidade de construtores e autarcas; se não há política de conservação da natureza digna desse nome; bom, digamos que alguma coisa falhou estrondosamente. E em vão culparemos apenas este Governo, ou outro, que o problema vem de longe e é estrutural.
Os interesses do costume dizem - agora, em crise económica, o país não pode parar! Claro que o ambiente não pode ser o único tema em consideração. Mas uma política ambiental forte e activa, coordenada com uma ideia de conjunto para o país, poderia ser um factor crucial de desenvolvimento.
Poluição é ineficiência. Dependência energética dos combustíveis fósseis é catástrofe financeira. Destruição do território e da paisagem é condenar o turismo de que precisamos. Construir em mancha de óleo pelas periferias fora, agrava os problemas urbanos e condena a qualidade de vida das pessoas. O desperdício energético polui mais e gasta sem utilidade. Betonar o litoral põe em causa a segurança das pessoas e favorece o avanço do mar. A água, a biodiversidade, o solo arável, são capitais preciosos e sê-lo-ão mais cada dia que passa.
Por isso, o ideal seria aproveitarmos a crise ambiental (a par da conjuntural crise económica) que se manifesta, como uma oportunidade de mudança, de criação, de inovação tanto tecnológica como cultural e social. Fazer da necessidade de salvar os equilíbrios planetários um ponto de partida - eficiência energética e produtiva, economia "descarbonizada" e solidária, revalorização da terra e da paisagem, energias renováveis e descentralizadas, construção e urbanismo sustentáveis e transportes não poluentes, tratamento e uso racional da água e reciclagem de materiais. Muito para fazer, pistas para um desenvolvimento que não hipoteque o futuro.
Ao nível local e regional, muito pode ser feito neste sentido. Talvez valha a pena tocar nesse ponto, em próxima crónica.
blguimaraes [at] clix [dot] pt
Comentários
Replica Watches Replica
I think your scrapbooks are
I think your scrapbooks are very good ,but your introduction isn't so attractive that everyone want replica handbags to continue to read it .Maybe you can change the way you introduce replica bags .