
http://pt.indymedia.org/conteudo/newswire/7188
“Todas as grandes mudanças sociais partiram da desobediência a alguma lei. Um dia virá em que terás de quebrar alguma lei importante. Até lá deves ir fazendo exercício, e infringir leis mais pequenas.”
Em pleno Dia Global da Luta Agrária, o ISCTE recebeu James C. Scott para a conferência “The Art of Not Being Governed”.
O professor de Ciências Políticas e Antropologia na Universidade de Yale, EUA, que tem estudado a resistência camponesa em várias partes do mundo, criticou a actual privatização dos recursos naturais, referindo-se ao “enclosure of the commons”: “Esta ideia de as multinacionais se apoderarem daquilo que é de todos. Pegar em formas de vida, pô-las num laboratório, mudar um aminoácido para depois as patentearem e poderem processar quem quer que use aquelas variedades. Apoderam-se de coisas que nunca antes imaginámos. Este esforço para privatizar a água, para patentear as formas de vida, parece ser a última fronteira das relações de propriedade – a destruição daquilo que era comum.”
Autor de livros como “The Art of Not Being Governed: An Anarchist History of Upland Southeast Asia”, “Domination and the Arts of Resistance”, “Weapons of the Weak: Everyday Forms of Peasant Resistance” ou “The Moral Economy of the Peasant”, James C. Scott começou um curso sobre anarquismo na universidade de Yale, e aponta para a actualidade das ideias anarquistas : “Os académicos voltam a falar de anarquismo, depois de 30 ou 40 anos de silêncio. Os principais protestos contemporâneos, como os indignados em Espanha ou o Occupy Wall Street, não são dirigidos por nenhuma estrutura e acontecem sem a esquerda institucional. Temos de perceber essa mudança de forma. Têm um cunho anárquico.”
A conferência contou com diversos oradores ibéricos, mas foi a conversa com Scott que arrastou um mar de interessados e obrigou mesmo a que se mudasse para uma sala maior. Falou-se da resistência dos agricultores portugueses e espanhóis durante as ditaduras de Salazar e Franco. Falou-se de várias comunidades que se organizaram e se desenvolveram à margem e em resistência contra os estados, e que têm atraído o interesse de antropólogos pelo mundo fora. Desde as shatter zones na América Latina, pelas montanhas do sudeste asiático, até aos pântanos da África Ocidental, onde tribos, grupos de camponeses dissidentes, escravos ou trabalhadores fugidos praticaram e praticam essa “arte de não ser governado”.
Entretanto, o facto de ninguém no seminário parecer saber da existência do Dia Global da Luta Agrária (http://pt.indymedia.org/conteudo/newswire/7186), que contou hoje com mais de 250 acções pelo mundo fora, parece revelador da distância que existe entre a academia e o mundo real, entre os intelectuais e os movimentos sociais.