

No dia 30 de Abril, a Organização Mundial de Saúde, sob a pressão de alguns países, anuncia que passa a designar o virus por gripe A(H1N1). A mudança da nomenclatura do virus parece ter como objectivo esconder o fio condutor genético que nos conduz até aos porcos e aves submetidos a um regime de produção intensiva que os deixa numa situação imunitária precária. No mesmo dia 30 de Abril são publicados os resultados da sequenciação genética, que revelam que a maioria dos genes do virus são de origem suína e aviária [1].
Talvez não seja coincidência o facto de as multinacionais farmacêuticas e da agro-indústria estarem tão próximas, que acabam por estar tanto na origem, como na solução apresentada para a pandemia. Segundo um estudo da Union of Concerned Scientists, 70% dos antibióticos consumidos nos Estados Unidos vão para usos animais não terapêuticos - isto é, para "prevenir" o aparecimento de doenças em animais que já pouco podem ter de saudáveis, quer devido às suas condições de vida completamente precárias e desumanas, quer devido à selecção e ausência de variabilidade genética.
A agro-indústria e as farmacêuticas formam claramente um complexo industrial (independentemente da sua intencionalidade) que se alimenta mutuamente. A agro-indústria depende dos produtos farmacêuticos para assegurar a sua progressiva intensificação da produção; a indústria farmacêutica não só enriquece com estes produtos, como ainda tem a oportunidade de beneficiar do alarme lançado perante cada nova pandemia[2]. De facto, sai mais barato encher os animais com antibióticos e deixá-los num ambiente propício à emergência de novas doenças, do que assegurar condições de vida adequada.
Há alguns anos, quando comecei a fazer investigação académica, trabalhei com alguns suinicultores em Montemor-o-Novo para a criação de um rótulo ecológico para a carne de porco[3]. Aí pude constatar a dificuldade em aplicar medidas tão simples de bem-estar animal como a utilização de palha em vez de gradeamento nas pocilgas ou a eliminação do corte dos dentes e das caudas dos suínos, medida que tem como objectivo evitar infecções resultantes das mordidas, que por sua vez resultam do stress a que estão sujeitos os animais amontoados em pocilgas tão pequenas. Obviamente, esse é o resultado da grande indústria alimentar global, altamente competitiva, onde praticamente só sobrevive quem é capaz de reduzir ao máximo os custos de operação através das grandes economias de escala trazidas por uma produção das indústrias globais de rações, agro-químicos e medicamentos.
A própria dimensão do alarme da pandemia tem sido questionada e com razão. Comparando os cenários de mortalidade associada à gripe suína com os de outras doenças[4] ou acidentes[5], verificamos que há uma discrepância significativa quer na atenção mediática, quer na urgência política e financiamento que é dirigido para a investigação farmacêutica.
Independentemente da dimensão que venha a assumir esta e outras pandemias resultantes da actual conformação agro-ecológica-medicinal, são sempre os cidadãos que pagam. Por um lado, sofremos os impactos gerados pelo modelo de produção intensiva de carne no nosso ambiente (nitratos, metais pesados e agentes patogénicos, entre outros impactos) e na nossa saúde, directa e indirectamente. Por outro lado, o dinheiro que descontamos é canalizado para os acordos que os Governos estabelecem com as farmacêuticas para a aquisição de antibióticos e vacinas.
Pior ainda é que, mais uma vez, os impactos não são igualmente distribuídos. Se os países ricos ou os cidadãos abastados têm capacidade de comprar um antibiótico patenteado por uma das maiores farmacêuticas e produzido em regime exclusivo, já o mesmo não se passa com outros países ou com populações desfavorecidas. Também estes sofrem duplamente, pois não só têm sido vítimas da externalização de uma produção suinícola intensiva e altamente poluente (que ninguém gosta de ter ao lado de casa), como são os que agora têm menos meios (pelo menos económicos e institucionais) para combater a pandemia.
Não devemos de forma alguma ficar de braços cruzados e assobiar para o lado, enquanto a nossa vez para comprar uma dose de Tamiflu à Roche. É essencial investigar e denunciar os verdadeiros culpados, não só para que paguem, como também para evitar a progressiva deterioração da saúde pública global. Se a Novartis quer desenvolver uma vacina e ter apoios para isso, ao menos que seja a agro-indústria a pagar e não os contribuintes. E que deixem os porcos apanhar um pouco de ar fresco, que sempre ouvi os antigos dizer que faz bem à saúde.
Gualter Barbas Baptista é activista do GAIA e da Plataforma Transgénicos Fora!. É investigador em Economia Ecológica e Ecologia Política no CENSE - Center for Environmental and Sustainability Research, da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa, onde se encontra a realizar uma tese de doutoramento sobre a ecologia política dos conflitos contra as plantações de eucaliptos em Portugal nos anos 80. É membro do Conselho de Redacção da revista ibero-americana Ecología Política e co-autor do livro "La Deuda Ecológica Española - Impactos ecológicos y sociales de la economía española en el extranjero".
Publicado originalmente no blogue do autor (http://ingenea.pegada.net)
[1] Trifonov V, Khiabanian H, Greenbaum B, Rabadan R. The origin of the recent swine influenza A(H1N1) virus infecting humans. Euro Surveill. 2009;14(17):pii=19193. Available online: http://www.eurosurveillance.org/ViewArticle.aspx?ArticleId=19193
[2] Diário Económico, Farmacêuticas estão a ganhar milhões com remédios contra a gripe suína, 1 de Maio de 2009.
[3] O rótulo ecológico estava a ser desenvolvido num processo participativo que correu muito bem até que o projecto terminou e os suinicultores, que já tinham montado uma associação para avançar com o rótulo, voltaram a reacender os seus conflitos interassociativos e deitaram todo o trabalho por terra. O relatório técnico do projecto PIGS pode ser acedido aqui.
[4] ABC News, Swine Flu Reality Check, May 1 2009.
[5] Diário Digital/Lusa, Presidente da Ryanair: gripe suína é «monte de disparates», 30 de Abril de 2009.