GAIA
Published on GAIA (http://arquivo.gaia.org.pt:80)

Início > Conteúdos > Face à gripe, um compromisso dos camponeses (Gustavo Duch)

Face à gripe, um compromisso dos camponeses (Gustavo Duch)

Gustavo Duch

Jeromo, amigo, espero que gostes

A mãe Terra adoeceu com gripe. Um quadro clínico cuja origem e agravamento se deve à propagação de uma agro-indústria poderosa, responsável por uma destruição massiva da terra camponesa e logo pelo desaparecimento dos seus moradores. Mas temos esperança, porque o campo, apesar de tudo, reserva sementes predispostas e dispostas a germinar. Tal como a iniciativa Compromiso Campesino (www.compromisocampesino.org) encabeçada por Jerónimo Aguado Martínez, camponês, trabalhador da terra e de gado, do município de Tierra de Campos, Palencia, Espanha.

Quando me sento a conversar com Jeromo, assim o chamamos, acabo sempre por achar que devia ter à mão caneta e papel. Porque a memória falha e há muito que aprender e recordar com tudo aquilo que Jeromo transmite. Bom, com o que explica e com o que faz, que isso da coerência é também algo a preservar. Jeromo fala da sua avó materna, que por tratar de todos os filhos que criou não teve tempo de conhecer as terras de trigo da família, mas que nunca – e enfatiza o nunca – permitiu que as vendessem. Fala dos seus anos de militante e colaborador com as causas camponesas na Nicarágua, como quando foi a uma entrega de terras a pequenos camponeses, a cargo de Ernesto Cardenal. Ou fala de Maria José, que gere uma horta com a tecnologia que lhe proporcionam as suas mãos, ecológica em toda a sua extensão. E do seu rebanho de 180 ovelhas, nem uma a mais, porque a ganância empobreceria as suas terras e o seu equilíbrio natural. Cordeiro nascido, cordeiro vendido entre os consumidores locais, que sabem da qualidade e higiene desse gado. Realidades modernas do século XXI que nos fazem compreender que existem camponeses e camponesas cuja vinculação à terra vai mais além do exercício de uma profissão, porque se sentem e são seres vivos que, em colaboração e reciprocidade com a natureza, produzem vida e alimentos saudáveis para a sociedade, sem necessidade de gerar riscos sanitários. Esse saber, essa responsabilidade, esses valores, foram recolhidos por Jeromo (grato!), num manifesto onde expressa ao mundo de forma clara a sua solidariedade com a causa de todas as camponesas e camponeses do mundo e os valores que orientam a sua acção. Foca esse ponto precisamente no início do manifesto: “Um valor, a ética acima dos negócios. Um compromisso, cuidar da terra, dos animais, dos rios, das sementes, dos bosques, dos ecossistemas, cada vez que produzo alimentos. Uma função, produzir alimentos saudáveis e nutritivos para todos. Uma opção de vida em vez de uma profissão, viver e manter as comunidades rurais e camponesas nos locais onde produzimos alimentos. Uma cultura e uma técnica não neutra, a agro ecologia, a agricultura camponesa e local. Um objectivo, a construção da soberania alimentar, do local ao global. Uma estratégia, manter vivas as culturas e os conhecimentos camponeses na gestão da terra, do gado, dos ecossistemas, dos alimentos, das plantas medicinais. Uma táctica, defender a própria terra com unhas e dentes, até que esta seja de todos e todas, ou de ninguém. Um posicionamento firme e irrenunciável face às culturas e sementes transgénicas, aos agro combustíveis, aos desertos verdes, à ocupação de solos de cultivo para urbanizações desnecessárias, aos grandes trajectos que favorecem o transporte absurdo de alimentos de uma ponta para outra do planeta, à agricultura industrializada e ao uso de materiais para a sua prática. Um inimigo, o neoliberalismo. Um método de luta, a não-violência e a desobediência civil. Uns companheiros e companheiras de viagem, os e as sem-terra, os agricultores e as agricultoras, os consumidores e as consumidoras, e todos aqueles que acreditam que um outro mundo é possível.”

Jeromo foi o primeiro a elaborar o manifesto, assinou-o e colocou-o bem visível na entrada da sua propriedade. E agora circula entre as suas companheiras e companheiros camponeses de todo o planeta, para que repitam o gesto e se torne uma causa colectiva. Face à agro-indústria que só se compromete a gerar más lucro aos seus accionistas, deixando de lado qualquer preocupação ecológica e social, e que é capaz de provocar uma crise sanitária de carácter global sem se qualquer preocupação, dá alento pensar que quando viajarmos no meio rural encontraremos nas portas de pequenas propriedades, quintas e hortas cartazes impressos com o Compromiso Campesino, para mim o melhor certificado de produções limpas. Se há futuro, este é ecológico e camponês.

Gustavo Duch Guillot foi presidente dos Veterinários sem Fronteiras e é membro do Conselho Editorial da revista Ecología Política. Escreve colunas em vários jornais incluindo o El Periódico da Catalunha, El País, La Jornada de México, Galicia Hoxe, Diario Público e El Correo Vasco.

Publicado em La Jornada de México, 30 de Abril de 2009

Tradução portuguesa por Sara Leão/GAIA

Creative Commons License
Salvo excepções explícitas, este site está licenciado sob uma
Licença Creative Commons Attribution-Noncommercial 2.5 Portugal.

Source URL (retrieved on 2019-12-10 18:19): http://arquivo.gaia.org.pt:80/node/14880